Luiz Carlos Pereira Martins, coronel da reserva e diretor da Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPM), é acusado de ter disponibilizado vagas de estacionamento e áreas exclusivas no clube da PM a operadores do PCC, conforme relatos de associados e mensagens investigadas pela Polícia Federal.
As informações foram divulgadas nesta quarta-feira (29) por um veículo de comunicação, que se baseou em depoimentos de membros da AOPM, na análise das mensagens pela PF e em registros fotográficos de eventos no “clube da PM”. Os depoentes falaram sob anonimato.
A publicação anterior já havia indicado que Pereira Martins mantinha um grupo no WhatsApp com Cléber Azevedo dos Santos, identificado nas investigações como um operador financeiro vinculado ao PCC. A Polícia Federal também descreveu o coronel como alguém que facilitava o acesso de membros do grupo à corporação.
Mensagens revelam ligação do coronel com reservas para suspeitos
Os relatos indicam que Pereira Martins utilizava sua posição na associação para assegurar aos convidados as melhores vagas de estacionamento e acomodações em locais privilegiados durante festas e confraternizações. Entre seus contatos estavam indivíduos que mais tarde foram investigados por movimentações financeiras relacionadas ao PCC.
Intermediação em reservas para operantes do PCC
Mensagens analisadas pela PF revelam que Pereira Martins teve comunicações diretas com Robson Martins de Souza, apontado como operador financeiro ligado à facção criminosa, a respeito de veículos luxuosos que seriam levados a uma festa da AOPM em abril de 2023.
As conversas mencionam três modelos da Porsche: um Cayenne branco, um Panamera preto e um 911 Carrera S amarelo. Conforme a reportagem, o coronel recebeu detalhes sobre os automóveis que participariam do evento diretamente de Robson.
No relatório da PF não está afirmado que os carros pertenciam aos investigados nem há indícios de irregularidades nas entradas dos veículos. Contudo, o documento registra a comunicação direta entre Pereira Martins e Robson.
Outra troca de mensagens sugere que o coronel também facilitava o acesso de amigos às colônias da associação. Em setembro de 2020, ele convidou Cléber Azevedo dos Santos para uma viagem à unidade em Campos do Jordão e mencionou que todos poderiam entrar “como associados”.
No mês de setembro deste ano, Robson consultou Pereira Martins sobre a reserva da colônia em Boraceia para o feriado. O coronel confirmou a reserva e disse que se encontraria pessoalmente com o empresário.
Cléber e Robson foram detidos no dia 21 de julho durante a Operação Janus, promovida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público paulista.
O relatório não esclarece quem arcou com os custos das hospedagens nem afirma que as reservas nas colônias infringiram normas da AOPM.
Imagens mostram investigados em eventos da AOPM
Registros públicos da associação também evidenciam a presença de Pereira Martins em eventos com pessoas que posteriormente foram alvo de operações contra o lado financeiro do crime organizado.
Uma foto divulgada pela AOPM em agosto de 2025 retrata o coronel na comemoração dos dez anos do Flashback AOPM, ao lado do advogado Antonio Carlos Ubaldo Júnior.
Ubaldo foi preso em março de 2026 durante a Operação Bazaar e novamente em julho na Operação Janus. Ele é considerado parte de uma rede suspeita envolvida na movimentação oculta de recursos para criminosos, incluindo membros do PCC.
Outra imagem capturada na festa dos 94 anos da AOPM, realizada em outubro de 2025, mostra Pereira Martins junto a Robson. O evento contou com apresentação do cantor Sidney Magal.
Ainda existem fotografias do coronel e sua esposa em jantares e comemorações com Cléber, Robson, Ubaldo e suas famílias. Os investigadores afirmam que essa convivência incluiu viagens, festas e grupos dedicados a encontros sociais via mensagem.
Membros da AOPM relataram preocupações quanto à presença dessas pessoas ligadas ao núcleo financeiro do PCC entre os frequentadores. No entanto, não há evidências nos documentos indicando que os envolvidos tenham utilizado as dependências para monitorar policiais ou planejar crimes.
A conclusão da PF sobre as ações do coronel
No relatório elaborado pela Delegacia de Repressão à Corrupção e aos Crimes Financeiros da PF, Pereira Martins é descrito como “grande amigo” tanto de Cléber quanto Robson. Para os investigadores, essa relação estreita ao longo dos anos é algo notável.
“A amizade próxima entre o coronel e Cléber e Robson é digna de nota.”
Ainda segundo a Polícia Federal, parece haver um padrão onde Pereira Martins “abre portas” dentro da PMESP para Cléber e seu círculo. Essa conclusão foi baseada na análise das mensagens trocadas, áudios e documentos obtidos através dos celulares apreendidos.
Uma das conversas revela o coronel convidando Cléber para um encontro em agosto deste ano e mencionando que levaria amigos “da turma dos coronéis”. Em outra interação, ele questionou Robson se seu telefone estava sendo monitorado.
A PF também avaliou a possibilidade de haver transferência financeira envolvendo coronéis, mas não encontrou elementos suficientes para confirmar essa suspeita até a conclusão do relatório em novembro passado.
Pereira Martins não foi preso nem faz parte das acusações relacionadas à Operação Janus ou ao núcleo financeiro sob investigação.
A Operação Janus foca em banco clandestino do PCC
A Operação Janus busca desvendar uma estrutura identificada pelo Gaeco como um banco clandestino destinado a integrantes proeminentes do PCC.
Esse grupo recebia grandes quantias em dinheiro vivo e devolvia aos clientes por meio transferências realizadas por empresas ou contas alheias. Esse método era denominado pelos envolvidos como “TED por vivo”, permitindo assim inserir recursos ilícitos no sistema bancário sem revelar quem realmente era o dono dos fundos.
Dentre as suspeitas também estão compras de dólares para membros da facção criminosa, participação em tribunais do crime e movimentação financeira destinada a policiais. No total, onze pessoas foram presas entre os 18 indivíduos cujas prisões preventivas foram decretadas.
Tanto Cléber quanto Robson já haviam sido alvos anteriores de investigações, incluindo a Operação Fractal iniciada em outubro de 2022 para investigar um esquema bilionário envolvendo remessas ilegais ao exterior via empresas fantasmas e criptomoedas.
AOPM defende ação do coronel
Em comunicado oficial datado de 28 de julho, a AOPM reconheceu as relações sociais entre Pereira Martins e os empresários mencionados; contudo, destacou que esses vínculos se formaram antes das suspeitas públicas surgirem contra eles.
A entidade reafirmou que seu diretor não está sendo investigado por atividades ilícitas nem existem atualmente indícios concretos contra ele. Além disso, expressaram confiança na “integridade e competência” do coronel.
A Polícia Militar paulista juntamente com a Secretaria da Segurança Pública já havia declarado anteriormente sua reprovação quanto a desvios éticos. Os órgãos informaram ainda que solicitaram acesso aos documentos investigativos ao Ministério Público para avaliar possíveis medidas nas esferas penal militar ou disciplinar pertinentes ao caso.
Um veículo informou não ter conseguido contato com Pereira Martins para discutir as novas descobertas. Embora ele não enfrente acusações diretas relacionadas ao núcleo financeiro investigado, as mensagens trocadas, fotografias obtidas e depoimentos lançam dúvidas sobre como indivíduos associados ao esquema puderam acessar festas exclusivas e áreas reservadas dentro da associação dos oficiais da PM.