Tarcísio elogia coronel Coutinho como “íntegro” antes de apuração sobre o PCC

Tarcísio de Freitas (Republicanos) descreveu o coronel José Augusto Coutinho como uma pessoa de caráter “ilibado” ao anunciar sua nomeação para a liderança da Polícia Militar de São Paulo. O comentário do governador voltou a ser debatido na quarta-feira (29), após a divulgação de um vídeo nas redes sociais que relaciona suas palavras às investigações que surgiram posteriormente sobre o oficial e sua suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

No vídeo, Tarcísio destaca Coutinho como um policial com uma carreira exemplar, enfatizando que ele possuía todas as qualificações necessárias para liderar a corporação. O coronel esteve à frente da PM paulista entre maio de 2025 e abril de 2026.

“Um homem de caráter ilibado, um grande policial militar, que tem todas as condições de conduzir a nossa Polícia Militar”, declarou Tarcísio.

Entretanto, é importante ressaltar que não existem evidências públicas indicando que Coutinho estivesse sob investigação formal no momento em que foi escolhido pelo governador. As investigações que passaram a mencioná-lo foram reveladas posteriormente, embora uma delas avalie sua conduta em relação a um alerta recebido em 2021, quando era comandante da Rota.

Tarcísio elogiou Coutinho antes das menções em investigações sobre o PCC

O nome de José Augusto Coutinho foi mencionado em um documento da Promotoria de Justiça Militar que indicava sinais de possível omissão diante de suspeitas relacionadas ao vazamento de informações confidenciais da Rota para membros do PCC.

Conforme o promotor Lincoln Gakiya, membro do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Coutinho foi informado em novembro de 2021 sobre uma gravação sigilosa envolvendo uma testemunha protegida, que supostamente teria sido negociada com a facção criminosa.

Gakiya afirmou ter apresentado ao então comandante da Rota os áudios pertinentes ao caso. A Promotoria Militar começou a investigar se Coutinho falhou em tomar as medidas necessárias para identificar e apurar os policiais suspeitos do vazamento.

A manifestação mencionou possíveis acusações como prevaricação ou condescendência criminosa. Contudo, não acusou Coutinho de fazer parte do PCC nem estabeleceu, nesse procedimento, uma conexão direta entre ele e a facção.

A Fórum divulgou que os depoimentos de Gakiya e do empresário Vinicius Gritzbach levantaram suspeitas acerca da participação de membros da Rota com o PCC. Gritzbach, que era delator da facção, foi assassinado em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

A Operação Janus trouxe novamente o ex-comandante da PM à tona

Coutinho voltou a ser mencionado em julho de 2026 nos documentos relacionados à Operação Janus, iniciada pelo Ministério Público de São Paulo contra um grupo suspeito de movimentar recursos financeiros para o PCC e envolvido nos chamados tribunais do crime.

A decisão judicial que autorizou esta operação relata que os integrantes do grupo investigado demonstravam ter influência sobre policiais civis e militares. O ex-comandante da PM foi citado em conversas ligadas a Amjad Ahmad, considerado um operador financeiro associado ao esquema que trocava transferências bancárias por dinheiro vivo.

Os documentos da investigação indicam que os suspeitos usavam empresas para disfarçar valores em espécie oriundos de atividades ilícitas. A Fórum revelou que áudios e planilhas obtidas durante a Operação Janus mencionam coronéis da PM paulista próximos aos operadores financeiros sob investigação.

No entanto, até o desencadeamento da operação, não havia identificações concretas contra Coutinho além das referências feitas nas conversas monitoradas. Ele não foi alvo dos mandados emitidos e não está entre os investigados na Operação Janus.

Outro oficial, coronel Luiz Carlos Pereira Martins, fazia parte de um grupo no WhatsApp com indivíduos suspeitos por lavagem de dinheiro para o PCC. A investigação indicou uma relação mais próxima do que simples contatos ocasionais. O caso foi detalhado pela Fórum na reportagem intitulada “Coronel da PM de Tarcísio tinha grupo no WhatsApp com operador apontado como ligado ao PCC”.

A escolha feita por Tarcísio levanta questões sobre critérios governamentais

A revelação não permite concluir que Tarcísio tinha conhecimento das investigações ao nomear Coutinho. Contudo, evidencia o contraste entre seu apoio público decisivo e as informações surgidas sobre o período do coronel à frente da Rota.

Ao descrever Coutinho como “ilibado”, Tarcísio não fez apenas uma defesa protocolar; ele utilizou seu capital político para endossar a imagem do oficial escolhido para chefiar uma das principais forças policiais do país.

Coutinho permaneceu no comando da PM até abril de 2026, quando foi sucedido pela coronel Glauce Maris Mendes. Em nota oficial, a Secretaria da Segurança Pública confirmou sua liderança na corporação desde maio de 2025.

A defesa do coronel alegou não ter tido acesso completo aos documentos relacionados à Operação Janus e reafirmou a integridade do oficial, além de manifestar expectativa quanto à comprovação da inexistência de seu envolvimento nas irregularidades investigadas.

As menções a Coutinho fazem parte de um conjunto crescente de revelações sobre a presença do PCC nas forças policiais paulistas. Em outra investigação, a Fórum mostrou mensagens relativas ao pagamento de propinas em quatro unidades da Polícia Civil durante o governo Tarcísio.

Diante disso, o governador terá que justificar quais critérios foram utilizados na escolha e nos elogios direcionados a Coutinho, além de esclarecer se houve alguma verificação interna após as suspeitas levantadas sobre as ações dos policiais da Rota.

By Ribeirão News

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