Vietnã enfrenta adiamento na inauguração de sua primeira fábrica de chips sem consenso com fornecedora da Holanda

Fontes consultadas alertam que o Vietnã pode não atingir sua meta de iniciar a produção de testes em sua primeira fábrica nacional de semicondutores até 2027. A empresa estatal encarregada do projeto ainda não conseguiu firmar um contrato para adquirir equipamentos da fabricante holandesa ASML. Com um investimento estimado em US$ 1,3 bilhão (aproximadamente R$ 7,3 bilhões), o empreendimento, liderado pelo grupo militar estatal Viettel, está localizado no Parque Tecnológico Hoa Lac, em Hanói, e permanece estagnado.

Imagens de satélite obtidas por meio das operadoras Planet Labs e Airbus em outubro de 2026 mostraram que a área de 27 hectares ainda está coberta por vegetação nativa. Desde a cerimônia inaugural realizada pelo governo vietnamita em janeiro, não houve progresso visível na construção do local.

A dominação monopolista na litografia

As tratativas entre a estatal vietnamita e a fornecedora holandesa se arrastam há meses sem que um contrato comercial tenha sido assinado. O foco das negociações gira em torno da compra de um sistema de litografia ultravioleta profunda, equipamento vital para marcar os circuitos eletrônicos nas lâminas de silício.

A ausência dessa máquina inviabiliza a produção comercial de microchips em qualquer fábrica do mundo. A ASML possui o monopólio global dos sistemas de litografia por ultravioleta extremo e é uma das poucas empresas junto com a japonesa Nikon que fornece as ferramentas necessárias para litografia ultravioleta profunda.

A dependência desse único fornecedor internacional submete o Vietnã às normas de controle de exportação estabelecidas pelo governo holandês sob as diretrizes ocidentais. O monopólio tecnológico da ASML atua como um obstáculo na hierarquia global de chips, determinando quais países têm permissão para construir fábricas autônomas.

Desafios financeiros e falta de experiência técnica

Segundo informações obtidas sobre o projeto, os atrasos são atribuídos à falta de experiência da Viettel na construção de fábricas especializadas em semicondutores e aos obstáculos burocráticos enfrentados para liberar recursos públicos. Embora o grupo militar tenha uma forte presença nas áreas de telecomunicações e defesa, ele nunca esteve envolvido na fabricação pesada de componentes microeletrônicos.

A proposta de produzir chips com tecnologia de 32 nanômetros é um objetivo ambicioso para um novo participante neste setor. Para comparação, o projeto indiano da Tata Electronics em Gujarat, que representa um investimento de US$ 11 bilhões, começará suas atividades em nós menos complexos com 55 nanômetros.

A Viettel divulgou um comunicado refutando as alegações sobre os atrasos e reafirmou que todas as etapas seguem conforme o cronograma estabelecido. Em nota enviada à Reuters, a empresa afirmou que o avanço do projeto está dentro do planejamento previsto.

Tanto o Ministério das Finanças do Vietnã quanto representantes da fábrica holandesa optaram por não comentar sobre o andamento das negociações. Esta incerteza coloca em risco o fornecimento projetado de chips locais para setores estratégicos como aeroespacial, automotivo e telecomunicações até 2030.

Soberania industrial sob controle do Norte global

A iniciativa para criar a fábrica integra a estratégia nacional do Partido Comunista do Vietnã visando aprimorar sua posição na cadeia produtiva tecnológica e garantir crescimento econômico até 2045. No momento, grandes multinacionais como Intel, Samsung e Amkor operam no país apenas com unidades dedicadas à montagem, teste e embalagem dos componentes fabricados no exterior.

A falta de capacidade produtiva interna mantém o mercado vietnamita dependente da importação dos chips processados. Sem domínio sobre a fase mais avançada do processo produtivo, o país se limita à oferta de mão-de-obra nas linhas de montagem.

O impasse relacionado ao investimento estimado em R$ 7,3 bilhões evidencia que a soberania tecnológica do Sul Global continua atrelada ao controle monopolista exercido pelas potências do Norte. As aspirações industriais do Vietnã encontram barreiras impostas por corporações ocidentais que definem quem pode participar da produção global de semicondutores.

By Ribeirão News

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