Com o fim das eleições, o assédio eleitoral permanece preocupante. O Ministério Público do Trabalho (MPT) registrou 530 novas queixas em menos de 48 horas após o término da votação, ocorrido no último domingo (25). Essa quantidade expressiva foi destacada pelo órgão como um indicativo de que as práticas de pressão política sobre os trabalhadores continuam mesmo após a apuração dos resultados. Esse total representa 21,4% das 2.467 denúncias recebidas ao longo do ano de 2026.
Para ilustrar a gravidade da situação: até o primeiro turno, o MPT havia contabilizado 991 denúncias; já no segundo turno, foram mais 946 relatos de casos. O aumento significativo logo após as eleições, concentrado em apenas dois dias, sugere que a derrota nas urnas não apenas não inibiu as tentativas de retaliação, mas intensificou-as. O órgão frisou que ameaças de demissão, dispensas efetivas, recusa de contratação e outras formas de represália motivadas pela escolha do voto podem caracterizar assédio eleitoral e serão devidamente investigadas.
Em uma declaração veiculada pelo MPT, o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, enfatizou: “O empresário é proprietário do negócio, mas não tem domínio sobre o voto dos seus funcionários. A demissão por motivos relacionados à convicção política é ilegal e será objeto da atuação do MPT na Justiça do Trabalho”.
Além disso, o MPT anunciou que tomará providências para investigar casos de ameaças de demissão e outras formas de retaliação relacionadas ao voto. No estado do Paraná, as ações já avançaram além da esfera teórica: o Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) emitiu uma recomendação formal para que Guilherme Kilter (Novo), vereador e deputado federal eleito em Curitiba, faça uma retratação pública acerca de suas declarações que incitavam empresários a demitir funcionários que votaram em Lula. Essa recomendação surgiu após a denúncia de assédio eleitoral envolvendo o político.
Assédio e listas de boicote
A situação envolvendo Kilter não é um caso isolado. Nas redes sociais, diversos políticos, empresários e influenciadores alinhados à direita têm promovido uma série de publicações incentivando demissões e boicotes com base nas escolhas eleitorais. A influenciadora Josiflora, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, foi ainda mais longe ao sugerir um isolamento total dos eleitores do presidente reeleito, pedindo ao público para negar desde oportunidades profissionais até favores simples como um copo d’água. Por sua vez, o criador de conteúdo Rapha Hanzol anunciou a demissão de uma funcionária por “falta de alinhamento à cultura” da empresa – uma expressão que disfarça a motivação política sob uma terminologia corporativa.
Simultaneamente, listas de boicote a estabelecimentos comerciais começaram a circular em aplicativos de mensagens, mapeando ideologicamente os negócios locais em várias regiões como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. O objetivo explícito dessas listas era prejudicar financeiramente empresas e empreendedores identificados como apoiadores de Lula. O que antes se restringia a discussões acaloradas durante as campanhas eleitorais passou a manifestar-se em ações organizadas para pressionar economicamente trabalhadores e pequenos empresários no período pós-eleitoral.
O MPT-PR deixou claro qual é a interpretação jurídica dessas ações: conforme estipulado pelo órgão, todos os trabalhadores têm direito à livre escolha dos seus candidatos e candidatas; assim sendo, qualquer medida retaliatória por parte dos empregadores relacionada às escolhas eleitorais é proibida. Isso inclui ameaças ou demissões baseadas em convicções políticas. A atuação do MPT na Justiça do Trabalho visa garantir que demissões decorrentes dessa natureza sejam reconhecidas como ilegais e combatidas adequadamente.
A repercussão social deste fenômeno transcende as relações formais de emprego. As listas de boicote e os apelos ao isolamento social também afetam pequenos empreendedores e trabalhadores autônomos que carecem da proteção oferecida por contratos formais mas enfrentam pressões econômicas diretas. Essa escalada demonstra que a polarização política se transforma em retaliações organizadas que vão além das eleições e ameaçam direitos fundamentais no cotidiano tanto no trabalho quanto no comércio.