A professora Vânia de Souza Borges acredita que a morte de seu filho, Rafael Borges do Amaral, em 2024, na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, está relacionada à sua dependência de apostas online e às perdas financeiras que ele acumulou.
Após a morte de Rafael, Vânia decidiu examinar o celular dele e as suas contas nas redes sociais e e-mails. Nesse processo, encontrou mensagens promocionais de sites de apostas e campanhas publicitárias com influenciadores digitais.
Com base nessa descoberta, ela começou a alertar sobre como esses criadores de conteúdo “atraem” apostadores com promessas enganosas de lucros rápidos e argumenta que eles também devem ser responsabilizados pelas consequências dessa publicidade.
“Senti a necessidade de exigir responsabilidade dos influenciadores, pois são eles que incentivam as pessoas a entrar nesse universo. Eles mostram ganhos fictícios e apresentam a ideia de que é fácil ganhar dinheiro, levando muitos a acreditar nisso. Eles se beneficiam enormemente com isso e precisam enfrentar as consequências”, declarou.
A constante exposição a vídeos que demonstram supostos lucros é vista por Vânia como um fator que atrai indivíduos para o vício, resultando em perdas financeiras significativas. Ela defende que aqueles que se beneficiam dessa publicidade não podem escapar das repercussões que ela gera.
Caminho do vício: da diversão à insolvência
De acordo com Vânia, antes das apostas, Rafael era uma pessoa “gentil e generosa”. No entanto, à medida que suas perdas cresceram, ele começou a se isolar e apresentar comportamentos agressivos. A família notou essa transformação e tentou convencê-lo a desistir das apostas, mas o entretenimento inicial evoluiu para um comportamento compulsivo.
“Meu desejo é que este problema das apostas seja confrontado seriamente para evitar que outras mães passem pelo mesmo sofrimento que eu estou vivendo. Eu me sinto mutilada”, desabafou.
A situação financeira deteriorou-se gradativamente. Rafael perdeu bens valiosos, incluindo uma moto, passando a destinar todo o seu salário para apostas sem conseguir economizar ou realizar planos futuros.
O vício deixou de ser uma atividade ocasional e passou a consumir integralmente sua renda. O relato de Vânia revela um ciclo vicioso mantido pelas plataformas através de notificações constantes, bônus atrativos e campanhas personalizadas.
Luta por justiça e regulamentação
Desde 2024, Vânia tem coletado documentos e contatado órgãos públicos para exigir investigações sobre as práticas das empresas de apostas e dos influenciadores envolvidos com elas.
O caso ganhou repercussão nacional quando uma carta dela foi anexada aos documentos da CPI das Bets no Senado, órgão responsável por investigar o mercado de apostas online no Brasil.
Recentemente, a deputada federal Dandara (PT-MG) apresentou uma representação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitando que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) apure possíveis práticas enganosas na publicidade, táticas digitais consideradas predatórias e a atuação dos influenciadores ligados ao setor.
O ministério confirmou que o pedido está sob análise das áreas técnicas competentes. A iniciativa da parlamentar reconhece institucionalmente o que Vânia vem denunciando desde o falecimento do filho: existe uma rede de interesses econômicos explorando apostadores vulneráveis sem assumir as responsabilidades pelos danos causados.
Exploração digital e vulnerabilidade dos apostadores
No Brasil, as apostas fixas estão autorizadas desde que as empresas possuam licenciamento governamental e sigam regulamentos específicos do setor.
No mês passado, novas normas foram implementadas exigindo alertas sobre os riscos associados às apostas e limitando propagandas que vinculem jogos ao sucesso financeiro, medidas que visam responder parcialmente às críticas sobre práticas publicitárias predatórias prevalentes nos anos anteriores.
<pEntretanto, Vânia acredita que essas regulamentações ainda não são suficientes para quebrar o ciclo nocivo identificado na vida do filho. Para ela, a combinação entre anúncios personalizados, facilidade no acesso às plataformas e divulgação por figuras populares da internet cria um ambiente propício para manter indivíduos vulneráveis apostando mesmo após sucessivas perdas financeiras.
Influenciadores com grande audiência constroem narrativas sobre ganhos fáceis que distorcem a percepção do risco envolvido nas apostas e normalizam comportamentos compulsivos.
Enquanto aguarda o andamento da representação da deputada Dandara no Ministério da Justiça, Vânia permanece engajada em sua luta pela responsabilização daqueles que lucram com essa publicidade enganosa para evitar que outras famílias vivenciem histórias semelhantes à sua.