Daniel Vorcaro optou por não prosseguir com uma terceira proposta de delação premiada e decidiu implementar uma “defesa clássica” nas investigações referentes ao Banco Master. Essa alteração de tática acontece após duas tentativas sem sucesso de colaborar com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), sendo avaliadas como insuficientes em relação às informações sobre suas conexões políticas.
Conforme informações divulgadas pelo colunista Lauro Jardim, do O Globo, a defesa decidiu abandonar os preparativos para um novo acordo e agora focará seus esforços na defesa no âmbito do processo criminal. A decisão ocorre após a segunda proposta de Vorcaro ter tentado isentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de possíveis irregularidades ligadas ao financiamento da cinebiografia “Dark Horse”, que retrata Jair Bolsonaro.
Daniel Vorcaro altera estratégia para defesa tradicional
A defesa clássica, na prática, consiste em contestar as evidências coletadas pela investigação, identificar potenciais nulidades processuais, questionar a participação do acusado nos atos investigados e buscar a revogação ou substituição da prisão preventiva. Essa abordagem permite que os advogados analisem cada acusação individualmente, sem a obrigação de fornecer informações sobre outros envolvidos, como seria exigido em um acordo de colaboração premiada.
A nova estratégia sugere que Vorcaro não pretende mais, pelo menos neste momento, tentar obter benefícios legais em troca de sua colaboração. Para que uma delação seja válida, é necessário apresentar novos fatos, documentos ou provas que possam ser verificados pelos investigadores. A simples narração de eventos já conhecidos ou argumentos defensivos sobre aliados não são suficientes para justificar um acordo.
A segunda tentativa de delação feita por Vorcaro foi rejeitada pela PF em junho. Investigadores consideraram que as informações fornecidas ainda careciam de elementos essenciais e visavam proteger membros do grupo político relacionado ao ex-controlador do Banco Master.
Delação visava proteger Flávio Bolsonaro e o filme Dark Horse
A parte mais delicada da proposta de delação era a conexão entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro no que se refere ao financiamento do filme “Dark Horse”. A proposta buscava caracterizar os repasses como um investimento legítimo, sem qualquer contrapartida política ou influência sobre agentes públicos.
Segundo relatos, essa narrativa foi vista como uma maneira de proteger Flávio Bolsonaro. Ao invés de esclarecer as circunstâncias das transações financeiras, Vorcaro defendia que essas operações não estavam ligadas aos interesses políticos e empresariais do banco.
No entanto, essa justificativa enfrentou problemas, pois a PF já possuía mensagens e documentos que comprovavam a relação entre o senador e o ex-banqueiro. O financiamento do filme totalizou aproximadamente R$ 61 milhões, conforme as investigações, e agora está sendo examinado para elucidar sua origem, destino e possíveis contrapartidas associadas.
Flávio Bolsonaro admitiu ter contatado Vorcaro em busca de apoio financeiro para o filme sobre seu pai. Mensagens obtidas durante as investigações mostraram o senador solicitando agilidade nos pagamentos. Essa relação foi elevada à condição de um foco específico nas apurações realizadas pela Polícia Federal.
PF investiga fluxo financeiro e contrapartidas relacionadas a Vorcaro
No mês passado, o ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a PF a aprofundar as investigações sobre os recursos destinados ao filme. O propósito é rastrear a movimentação desse dinheiro e identificar quem recebeu ou gerenciou esses valores vinculados à produção cinematográfica.
A investigação também busca verificar se houve alguma contrapartida política decorrente desse financiamento para Vorcaro ou empresas ligadas ao Banco Master. Uma das linhas investigativas da PF analisa possíveis relações entre os repasses ao filme e emendas parlamentares apresentadas por Flávio Bolsonaro.
Essa linha de investigação amplia o escopo do caso. Não se trata apenas de determinar se o filme recebeu fundos privados, mas também se houve uso de recursos públicos ou influência política para beneficiar interesses associados ao banqueiro. Um investimento em produção audiovisual isoladamente não constitui crime; as apurações visam entender as condições e eventuais contrapartidas dessa operação.
Outro aspecto recente está ligado ao escritório de advocacia conectado a Flávio Bolsonaro. Relatos apontam que foram emitidas três notas fiscais totalizando R$ 1,5 milhão relacionadas a empresas investigadas no caso do Banco Master. Duas dessas notas foram posteriormente canceladas.
Esse assunto foi levado à Polícia Federal através de uma representação feita pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). Ele solicita que os investigadores verifiquem quais serviços foram prestados, rastreiem os pagamentos realizados e analisem se existe ligação entre essas notas fiscais, o financiamento da “Dark Horse” e interesses empresariais ligados a Vorcaro.
A desistência da delação não encerra as investigações contra Vorcaro
Vorcaro permanece sob prisão preventiva no âmbito da Operação Compliance Zero. Em junho passado, André Mendonça negou seu pedido para transferência para prisão domiciliar e determinou sua transferência para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.
A decisão foi justificada pela gravidade dos fatos sob investigação e pelos riscos apontados pela PF. A Operação Compliance Zero investiga suspeitas relacionadas a fraudes financeiras bilionárias, lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e uma estrutura destinada à intimidação contra adversários e empresários considerados obstáculos aos interesses do grupo investigado.
A desistência em avançar com uma terceira delação não elimina as provas já coletadas nem impede novas ações por parte da PF ou do STF. Ao optar por não seguir com o acordo, Vorcaro abre mão da possibilidade imediata de negociar uma redução penal em troca de informações valiosas e agora dependerá dos recursos apresentados pela sua defesa bem como da capacidade desta em enfraquecer as acusações durante o processo judicial.
Para Flávio Bolsonaro, essa mudança também não encerra as investigações acerca do financiamento da “Dark Horse”. A tentativa anterior de caracterizar esse apoio financeiro como isento de interesses políticos foi rechaçada antes mesmo da formalização do acordo. Agora cabe à PF confrontar essa versão com mensagens trocadas, notas fiscais emitidas, movimentações bancárias e decisões parlamentares relacionadas ao ex-banqueiro.
Tanto Vorcaro quanto Flávio Bolsonaro têm garantida a presunção de inocência até que se prove o contrário na Justiça. As investigações deverão esclarecer se as relações documentadas permaneceram no âmbito pessoal ou empresarial ou se envolveram contrapartidas ilegais ou favorecimentos políticos. Sem um acordo formalizado na forma de delação premiada, o ex-controlador do Banco Master terá que enfrentar essa batalha judicial com as evidências já disponíveis aos investigadores.