Cabo Gilberto compara crescimento da extrema direita no Brasil à ascensão do nazismo na Alemanha

No último dia 5 de junho, durante uma entrevista à Rádio Arapuan em João Pessoa, o deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB) fez uma polêmica comparação entre o crescimento da direita nas eleições brasileiras e o período que precedeu a ascensão do nazismo na Alemanha. O parlamentar, alinhado com a ideologia bolsonarista, utilizou a narrativa de “humilhação” para justificar o fortalecimento de seu grupo político e defender a destituição do ministro Alexandre de Moraes, afirmando que “a justiça é cassar o ministro Xandão”. Historiadores e estudiosos reagiram nas redes sociais, criticando suas declarações por apresentarem imprecisões e por simplificarem um dos capítulos mais complexos e violentos da história do século XX.

Comparações controversas entre bolsonarismo e nazismo

Cabo Gilberto recorreu ao período após a Primeira Guerra Mundial para explicar o desempenho eleitoral da direita no Brasil. Ele argumentou que as sanções impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes fomentaram um sentimento de ressentimento que ajudou a impulsionar Adolf Hitler. O deputado sugere que uma situação semelhante está ocorrendo atualmente no Brasil devido às decisões do STF contra os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Eu sou um grande apreciador de história e, no final da Primeira Guerra Mundial, Winston Churchill e os vencedores humilharam a Alemanha antes dela se tornar nazista. Hoje, a Suprema Corte está humilhando o povo brasileiro e sua liberdade, em conluio com o PT”, declarou ele durante a entrevista.

<pNesse contexto, Cabo Gilberto manifestou sua defesa pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes: “Queremos fazer justiça, e isso significa cassar o ministro Xandão para que ele responda por seus crimes.” Quando questionado pelo repórter Luís Torres se estava fazendo uma analogia entre Jair Bolsonaro e Hitler, o deputado prontamente negou: “Não tem nenhuma relação uma coisa com a outra. Zero. É apenas um fato histórico que ocorreu”, reiterando que sua referência tinha como objetivo servir como um “exemplo histórico” sobre como situações de descontentamento social podem gerar reações políticas nas urnas.

Confira o vídeo:

https://x.com/delucca/status/2107806500945326434

Críticas de historiadores sobre distorções históricas

A análise de Cabo Gilberto foi contestada por especialistas na área. Nas redes sociais, historiadores expressaram suas discordâncias em relação às declarações do deputado, destacando tanto a distorção histórica quanto os riscos de apologia ao nazismo presentes em sua fala.

O professor Emilio Figueiredo (@emiliohistoriador), especialista em Ensino de História, foi um dos que respondeu mais elaboradamente. Ele argumentou que a ascensão de Hitler não pode ser reduzida à mera ideia de “humilhação” causada pelo Tratado de Versalhes. “Embora esse tratado tenha tido consequências significativas, o nazismo surgiu de um conjunto muito mais complexo: crise econômica, instabilidade política, crescimento do ultranacionalismo, antissemitismo, violência política e propaganda que enfraqueceu as instituições democráticas”, explicou Figueiredo.

A fala do deputado também contém uma falha factual importante: Cabo Gilberto atribuiu erroneamente a Winston Churchill um papel central nas negociações do Tratado de Versalhes, assinado em 1919. Na verdade, Churchill não era primeiro-ministro britânico naquela época; ele só assumiria esse cargo em 1940 durante a Segunda Guerra Mundial.

Impacto das declarações

As afirmações feitas pelo deputado geraram repercussão nas redes sociais e reacenderam discussões sobre o uso inadequado de analogias históricas sensíveis no discurso político da extrema direita brasileira. A narrativa da “humilhação” e a defesa pela destituição de Alexandre de Moraes não são novidades dentro do bolsonarismo: elas fazem parte de um padrão recorrente de ataques ao STF e às instituições democráticas, especialmente após as condenações relacionadas aos eventos ocorridos em 8 de janeiro e ao processo que resultou na prisão de Jair Bolsonaro.

A declaração de Cabo Gilberto evidencia claramente uma estratégia voltada para utilizar interpretações históricas simplificadas como forma de construir um discurso que visa vitimizar seu grupo político enquanto deslegitima adversários. Ao mencionar o nazismo como “exemplo” sem estabelecer uma comparação direta explícita, o deputado tenta normalizar a ideia de que punições legais representam perseguições políticas, posicionando assim o STF como um agente opressor.

Cabo Gilberto é reconhecido como o deputado federal mais votado na Paraíba, obtendo 267.142 votos. Este resultado contrasta com as eleições presidenciais no estado: Lula (PT) conquistou 61,31% dos votos para presidente na Paraíba, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) recebeu apenas 33,07%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

By Ribeirão News

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