Por Sara Goes
Na jornada de alguns indivíduos que alcançam grande sucesso, há um instante particularmente doloroso: o momento em que o personagem começa a eclipsar o ator. Renato Aragão, ao criar Didi Mocó, estabeleceu uma das personalidades mais icônicas da televisão brasileira. O modo de falar, as expressões inventivas, a ingenuidade malandra e até o ritmo das piadas tornaram-se tão familiares que, com o passar do tempo, ficou difícil distinguir onde Renato terminava e Didi começava.
O personagem que lhe trouxe fama acabou por aprisioná-lo. Enquanto Renato podia envelhecer e se reinventar, Didi tinha que permanecer fiel a si mesmo, repetindo os comportamentos que haviam feito com que o público o reconhecesse.
Assistindo ao debate de domingo com Ciro Gomes, percebi uma sensação semelhante.
Tudo estava lá: Sonrizal, Colesterol, Novalgina e Mufumbo.
As palavras eram ditas com a mesma satisfação de quem aguarda a reação da plateia. As respostas rápidas e espirituosas. A tentativa de exibir inteligência por meio da agilidade na fala. A indignação performática. O professor que ensina algo que supostamente ninguém mais compreendeu. Até mesmo a representação do Ceará feita por Ciro parecia preservada em uma cápsula do tempo. Era como se fosse Ciro Mocó.
Por muitos anos, Ciro construiu uma persona política extremamente eficaz. O jovem governador notavelmente preparado, com intelecto acima da média, capaz de recitar números de memória e humilhar adversários em debates. Essa imagem perdurou por décadas. A fama de sua inteligência se tornou tão intrínseca à sua identidade pública que frequentemente dispensava qualquer necessidade de demonstrá-la em ação. Todos já sabiam que Ciro era inteligente.
Assim como Didi precisava exibir seu famoso “Ô, psit!”, Ciro sentia a necessidade de provar ser o mais esperto da sala. No entanto, o Ceará mudou de cenário.
Muito do repertório utilizado por Ciro no debate ainda busca respaldo na gestão que teve entre 1991 e 1993. Suas conquistas desse período servem como um selo constante de competência, embora pessoas nascidas no último ano de seu governo já tenham mais de 30 anos hoje. Quando confrontado sobre políticas e indicadores atuais, ele frequentemente retoma sua própria biografia.
Essa situação gera um paradoxo interessante: o candidato que durante anos se apresentou como homem do futuro agora é um dos que mais precisa falar sobre seu passado. Elmano de Freitas percebeu essa vulnerabilidade e decidiu deslocar o foco para questões contemporâneas. Ao invés de competir com Ciro sobre quem governou melhor o Ceará há três décadas, ele trouxe números e realizações atuais do seu governo, questionou dados apresentados pelo rival e associou sua candidatura a um campo político alinhado com Lula, Camilo Santana, Cid Gomes e Luizianne Lins.
A presença de Luizianne também adicionou uma nova dinâmica ao debate. Conhecido por sua agressividade verbal e ataques pessoais ao longo da carreira política, Ciro surpreendeu ao adotar uma postura mais moderada durante esse encontro. Em certos momentos, chegou até a afirmar que não desejava “esquentar muito” as discussões.
Isso parece fazer parte de uma estratégia eleitoral clara para reduzir sua rejeição entre os eleitores. No entanto, é importante considerar o contexto atual: Ciro entra na campanha após enfrentar diversas polêmicas envolvendo mulheres e ter sido condenado em primeira instância por violência política de gênero contra a prefeita Janaína Farias. Com Luizianne agora integrada à chapa governista, atacar tradicionalmente essa aliança poderia resultar na exposição da imagem negativa da qual sua campanha busca distanciar-se.
Outra contradição emerge em sua persona: enquanto o antigo Ciro operava livremente sem pedir permissão – brigando, interrompendo debates e utilizando ironias –, o Ciro das eleições de 2026 precisa convencer os eleitores de que ainda é aquele homem sem parecer ser exatamente ele mesmo. É um desafio complexo para alguém que passou tanto tempo confundindo seu temperamento com sua identidade política.
Dessa forma, durante o debate houve momentos em que Ciro parecia buscar dentro de seu próprio repertório elementos capazes de provocar novamente as reações passadas. Assim surgiam expressões conhecidas como Sonrizal, Colesterol, Novalgina e Mufumbo.
A mesma lógica se aplica à imagem construída em torno de sua inteligência: embora continue sendo um homem bem informado e capaz de abordar temas complexos com facilidade, transformar essa habilidade em algo quase sobrenatural – como se fosse uma propriedade exclusiva – não se sustenta diante dos problemas concretos.
O debate proporcionou um momento interessante ao tirar Ciro do espaço seguro da reputação e colocá-lo frente a frente com um governador capaz de desafiá-lo diretamente. Quando Elmano respondia ou contestava informações apresentadas por ele, não bastava à figura do adversário assumir automaticamente a posição superior frente a um interlocutor despreparado; era necessário demonstrar autoridade real.
Nesse contexto é evidente como a figura pública começa a mostrar sinais do tempo passado: a imagem do prodígio jovem pertence a outro capítulo da política brasileira; o Ceará que sustentou sua ascensão já não existe mais. Cid rompeu relações com ele; Camilo consolidou-se como uma liderança nacional no PT; Elmano está no comando do estado; Luizianne voltou ao centro das disputas eleitorais; e Lula permanece como referência principal para o campo progressista no Ceará.
Ciro parece lutar para encontrar novamente seu lugar nesse cenário mudado onde todos esses personagens estão em posições diferentes das anteriores. Por isso sua candidatura pode parecer um reencontro constante consigo mesmo enquanto busca reviver a figura do jovem governador ou do temido debatedor inteligente – tudo isso enquanto enfrenta a realidade atual interpretando apenas Ciro Gomes.