Irã anuncia desenvolvimento de “cérebro artificial” utilizando neurônios vivos

O Irã revelou que criou um protótipo de biocomputador em um ambiente laboratorial. Este dispositivo utiliza neurônios humanos vivos, cultivados fora do organismo, para estabelecer redes que possuem a capacidade de aprender. A declaração foi feita por Ataollah Pour-Abbasi, secretário do Quartel-General de Desenvolvimento de Ciências e Tecnologias Cognitivas do país, e foi divulgada pela agência Mehr News, que possui vínculos com o governo iraniano.

Pour-Abbasi afirmou que o país já possui domínio sobre a técnica de cultivo dessas células nervosas em laboratório, permitindo a formação de sinapses e redes funcionais semelhantes às do cérebro humano. Ele destacou que isso representa a base para a criação de processadores computacionais feitos a partir de tecido cerebral. O secretário mencionou também que uma empresa de tecnologia iraniana já desenvolveu um protótipo experimental do dispositivo, ressaltando como vantagens da nova tecnologia o aumento na velocidade de processamento e uma redução no consumo energético que pode ser até um milhão de vezes menor em comparação aos chips de silício tradicionais.

Necessidade de validação externa

No entanto, até o momento, as informações apresentadas se baseiam no relato de um representante do governo iraniano e foram amplificadas por uma agência estatal. Não há artigos científicos publicados, dados sobre desempenho, imagens do protótipo em operação ou qualquer validação por pesquisadores independentes fora do Irã. Essa ausência não implica necessariamente que as alegações sejam falsas, mas representa uma lacuna significativa em um campo onde outros países já publicaram resultados verificáveis há algum tempo.

A área em questão é chamada de computação biológica ou “inteligência organoide”, e não é uma inovação exclusiva do Irã. Duas empresas dominam atualmente o cenário comercial e científico nessa esfera. A Cortical Labs, da Austrália, oferece o CL1, descrito como o primeiro biocomputador disponível comercialmente no mundo — um sistema que contém centenas de milhares de neurônios humanos cultivados em laboratório sobre um chip de silício e os mantém vivos por até seis meses. Em março deste ano, essa empresa demonstrou publicamente 200 mil neurônios humanos aprendendo a jogar Doom.

Por outro lado, a FinalSpark, com sede na Suíça, opera a Neuroplatform, que é um serviço em nuvem permitindo acesso remoto a organoides cerebrais — pequenas esferas compostas por cerca de 10 mil neurônios cada — possibilitando que pesquisadores universitários realizem experimentos através de uma API sem necessitar ter um laboratório próprio.

Um campo promissor ainda em desenvolvimento

É importante destacar que mesmo os projetos mais avançados nesta área, como os da FinalSpark, consideram sua tecnologia como ainda em fase inicial. Uma reportagem publicada em maio pelo Journal of Medical Internet Research descreve esse campo como promissor mas ainda incipiente, com potenciais aplicações variando desde estudos sobre o funcionamento cerebral até o desenvolvimento de novos medicamentos — mais como uma alternativa futura para os data centers usados atualmente na inteligência artificial.

Nos Estados Unidos, a National Science Foundation já está financiando pesquisas organizadas nesse sentido desde 2024. Um programa com investimento total de US$ 14 milhões exige que cada projeto tenha obrigatoriamente um especialista em ética como coautor — evidenciando que dentro da própria comunidade científica há reconhecimento da necessidade de cautela regulatória ao lidar com a manipulação de tecido neural humano.

A relevância do anúncio

A declaração feita pelo Irã se alinha a um padrão frequente observado nas comunicações científicas e tecnológicas provenientes de regimes sob sanções internacionais — muitas vezes utilizadas como demonstrações das capacidades tecnológicas voltadas principalmente para o público interno e aliados geopolíticos em vez da comunidade científica global. Isso não deve ser interpretado automaticamente como uma prova da inveracidade das alegações: o Irã já tem histórico significativo em áreas como neurociência e biotecnologia. Contudo, na falta de publicações revisadas por pares ou demonstrações independentes públicas, essa afirmação deve ser vista apenas como uma declaração oficial ainda não verificada — não representando um avanço tecnológico comprovado.

By Ribeirão News

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