Lista de propinas do PCC revela relações com delegacias no governo Tarcísio

Na administração de Tarcísio de Freitas, pelo menos quatro delegacias da Polícia Civil de São Paulo foram mencionadas em comunicações e gravações de operadores financeiros ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), referentes a possíveis pagamentos de subornos. As unidades citadas incluem o 13º e 39º Distritos Policiais, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e uma Delegacia Seccional localizada na zona norte da capital paulista.

Os áudios, mensagens e a lista de envolvidos foram divulgados nesta quarta-feira (22) por um veículo de comunicação que obteve acesso a um documento do Ministério Público de São Paulo (MPSP). Esse material faz parte da Operação Janus, que foi iniciada na terça-feira (21) para investigar uma rede suspeita de operar um “banco paralelo” para lavagem e movimentação de recursos atribuídos ao PCC.

A análise das informações obtidas indica um desdobramento significativo no caso. Em abril, o MPSP já havia processado 23 indivíduos envolvidos em um esquema de corrupção dentro da Polícia Civil, onde ocorriam pagamentos regulares de propina, interferência em investigações e atividades no Deic. A Operação Janus surge como uma continuidade dessas investigações.

Os documentos não implicam diretamente Tarcísio de Freitas, uma vez que a relação com o governador é institucional; as delegacias mencionadas estão sob a supervisão da Secretaria da Segurança Pública do Estado.

Mensagens do PCC mencionam quatro unidades governamentais

As comunicações incluem Bruno Ramos Fernandes, considerado um dos responsáveis por liberar os recursos do banco paralelo, e Robson Martins de Souza, reconhecido pelo MPSP como uma figura chave no esquema financeiro.

Conforme os documentos analisados, Bruno e Robson conversaram sobre a necessidade de obter dinheiro em espécie para efetuar pagamentos a policiais do 13º DP, localizado na Casa Verde, do 39º DP, na Vila Gustavo, e também de uma Delegacia Seccional da região norte.

Para encobrir os valores reais das transações, os investigados utilizavam um código: o último dígito dos montantes era excluído das mensagens. Assim, as referências encontradas pelos investigadores indicariam pagamentos variando entre R$ 7,5 mil e R$ 15 mil.

Em outra conversa gravada, Cléber Azevedo dos Santos, também identificado como operador financeiro da rede, teria instruído Bruno a separar R$ 50 mil para “pagar a polícia”. O documento não esclarece quem seria o destinatário desse montante.

Áudios mencionam quantias expressivas no Deic

O Deic é mencionado em gravações atribuídas a Cléber Azevedo. Em um dos áudios obtidos, ele solicita a liberação de R$ 100 mil para que um “cliente” do grupo efetuasse um suposto pagamento à unidade policial.

“Precisa pagar os polícia do Deic.”

Em outra mensagem de voz enviada a Amjad Ahmad, também considerado operador financeiro no esquema, Cléber menciona uma cobrança de R$ 300 mil relacionada a policiais civis da seção de crimes cibernéticos do Deic.

Ainda segundo seu relato, os agentes discutiam o potencial indiciamento de Robson Martins de Souza. Essa afirmação provém de um investigado e não comprova isoladamente que houve cobrança ou recebimento por parte dos policiais.

A representação inclui também registros classificados como “despesas do Deic”, onde os investigadores sustentam que as quantias eram divididas através de empresas fictícias e entrega em espécie.

Doleiro compara Deic a um banco

No dia 15 de junho, Cléber enviou uma foto interna do Deic ao doleiro Raphael Flores Rodriguez, conhecido como “Batata”. O destinatário fez uma analogia entre o departamento policial e um banco onde o grupo apenas depositava dinheiro.

Raphael Flores Rodriguez é apontado como um elo entre operadores financeiros e doleiros. Ele foi detido pela Polícia Federal no final de março durante a segunda fase da Operação Narco Azimut, em outra investigação sobre lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

A troca entre Cléber e o doleiro reforça para os investigadores a ideia da existência contínua desses pagamentos. No entanto, não há identificação clara dos policiais que teriam recebido as quantias registradas como despesas.

Nova denúncia revela corrupção na Polícia Civil

A situação atual acrescenta novas unidades e indivíduos ao quadro já reconhecido oficialmente pelo Ministério Público. Em 27 de abril passado, o Gaeco apresentou acusações contra 23 pessoas envolvidas em práticas corruptas dentro da Polícia Civil.

A denúncia abrangeu policiais civis, operadores financeiros, advogados e intermediários. Segundo o MPSP, essa rede operava no Deic bem como no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) e num distrito policial local para resguardar atividades ligadas à lavagem de dinheiro.

Os subornos teriam começado em agosto de 2020 e continuado mesmo após ações da Polícia Federal e Receita Federal. O grupo é acusado ainda de movimentar bilhões por meio de empresas fictícias e fraudes envolvendo cartões alimentação.

A denúncia inclui relatos sobre retirada ilícita de documentos e troca deliberada de equipamentos eletrônicos apreendidos. Essas manobras visavam dificultar a coleta de provas e atrasar investigações em andamento.

O Ministério Público solicitou ainda o bloqueio patrimonial dos policiais denunciados até o montante máximo individualizado em R$ 5 milhões para assegurar reparações financeiras em eventuais condenações futuras.

Corrupção atinge altos escalões da PM

A Operação Janus revelou também conexões entre operadores financeiros investigados e oficiais superiores da Polícia Militar paulista. Os coronéis mencionados nos documentos não são alvos diretos da operação nem foram denunciados pelo Ministério Público até agora.

Uma análise realizada revelou que três coronéis aparecem nas informações coletadas que respaldaram a Operação Janus. Os dados incluem diálogos trocados por meio do WhatsApp bem como anotações financeiras relevantes.

Dentre eles está o coronel Pereira Martins, descrito como amigo próximo dos operadores Cléber Azevedo e Robson Martins. Documentos sugerem sua participação em grupos sociais virtuais relacionados ao assunto crime organizado.

Outro nome citado é José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da PM paulista. Ele aparece em conversas com Amjad Ahmad; este último é identificado como operador financeiro vinculado ao banco paralelo mencionado anteriormente.

Um terceiro oficial conhecido apenas como coronel “Patrício” é listado numa planilha financeira com referência a dinheiro vivo sob sua designação como “cliente”. Os documentos disponíveis não esclarecem detalhes sobre esse registro nem indicam se ele recebeu quaisquer recursos ilícitos.

Todas essas informações ampliam as dimensões institucionais envolvidas na investigação. Enquanto mensagens indicam supostos pagamentos nas unidades policiais civis citadas anteriormente; registros evidenciam relações pessoais íntimas entre operadores financeiros investigados com altos oficiais militares.

A Operação Janus visa desmantelar banco paralelo do PCC

A Operação Janus resultou na execução simultânea de 18 mandados preventivos e outros tantos mandados para busca e apreensão emitidos pela Vara Estadual responsável por Organizações Criminosas e Lavagem Patrimonial.

Pela última atualização desta matéria relevante às ações realizadas até então pela força-tarefa judicial competente já haviam sido capturados 11 indivíduos; outros possíveis alvos estão foragidos ou já respondem por acusações anteriores envolvendo crimes semelhantes.

Segundo informações repassadas pelo MPSP, essa rede recebia valores originários ilícitos em espécie que eram convertidos posteriormente através transferências bancárias disfarçadas. Empresas fictícias eram utilizadas para camuflar as origens dos recursos envolvidos nas operações ilegais realizadas pelo grupo criminoso.

A Justiça determinou ainda o bloqueio patrimonial individualizado podendo alcançar até R$ 10 milhões por investigado além da indisponibilidade temporária dos bens materiais vinculados às operações fraudulentas incluindo imóveis veículos contas bancárias pertinentes aos envolvidos na estrutura criminosa detectada pela investigação atual.

A investigação constatou também que membros do núcleo financeiro recorriam aos chamados “tribunais do crime” pertencentes ao PCC para resolver disputas relacionadas à propriedade patrimonial; um exemplo notável disso envolve negociações acerca da venda ou aquisição possivelmente irregularizada relativa à transação imobiliária envolvendo imóveis luxuosos localizados na Riviera São Lourenço litoral paulista .

Situação das delegacias permanece indefinida

No intuito obter esclarecimentos sobre as delegacias citadas nas investigações bem como sobre os alegados pagamentos realizados aos seus integrantes , foi buscada posição oficial junto à Secretaria Estadual Segurança Pública governo Tarcísio . Até às nove horas quinze minutos desta quarta-feira , nenhuma resposta havia sido disponibilizada pela pasta .

No mês anterior , ao abordar denúncias igualmente sérias envolvendo policiais civis , essa mesma secretaria afirmou estar colaborando ativamente com todas as apurações conduzidas pela Corregedoria dessa instituição . Também reiterou publicamente que sua corporação não compactua com desvios éticos ou administrativos praticados por seus membros ; além disso adotaria medidas disciplinares cabíveis caso irregularidades fossem confirmadas durante as apurações subsequentes .

No entanto , apesar das revelações contidas nos documentos emitidos pela representação referente à Operação Janus , não se pode afirmar conclusivamente que todos os pagamentos mencionados foram efetivamente realizados nem se identifica publicamente quais policias poderiam ter recebido esses recursos identificáveis no escopo dessas transações financeiras realizadas pelos operadores apontados vinculadamente ao banco paralelo associado ao PCC .

By Ribeirão News

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