Na segunda e terça-feira (6 e 7), empresários brasileiros se reuniram em audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para discutir a tarifa de 25% imposta sobre produtos do Brasil. A presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do influenciador Paulo Figueiredo na mesma audiência gera preocupação entre os participantes, que temem que suas intervenções possam tornar o debate mais politizado e dificultar as tratativas com o governo de Donald Trump, conforme informações obtidas pela coluna Painel.
A ironia no centro do episódio
A apreensão dos empresários revela uma ironia latente, especialmente quando se considera o histórico recente da questão. Flávio e Figueiredo, que agora buscam formalmente a revogação das tarifas durante a audiência, são, na verdade, protagonistas na ofensiva que levou à abertura da investigação comercial contra o Brasil. Junto ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, eles atuam desde 2025 em Washington para pressionar autoridades brasileiras, propondo medidas como sanções da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal e revogação de vistos — ações que culminaram na tarifa que agora desejam contestar.
Além disso, Paulo Figueiredo pretende ir além do discurso contra as tarifas nesta audiência: segundo informações apuradas, ele planeja argumentar diretamente a Trump que a sobretaxa de 25% deveria ser substituída por sanções direcionadas a integrantes do Judiciário brasileiro, focando especificamente no ministro Alexandre de Moraes, podendo incluir outros magistrados do STF.
Um documento de 86 páginas — e um pedido bastante específico
Flávio chegou a Washington no domingo (5) após protocolar um documento de 86 páginas junto ao USTR na quinta-feira (2), solicitando a suspensão imediata da tarifa e adiamento da decisão por 180 dias — um prazo que coincidiria com o período posterior às eleições presidenciais brasileiras em outubro. Sua principal argumentação é que essa sobretaxa concederia ao governo Lula a vitória política que busca, enquanto prejudica também a economia americana e os brasileiros interessados em uma relação comercial justa com os Estados Unidos.
O presidente Lula já se manifestou publicamente contra essa movimentação, atacando a postura dos Bolsonaro como entreguista e submissão aos interesses americanos. O Itamaraty também seguiu essa linha em uma nota onde classificou o grupo como “traidores da Pátria”, atribuindo a origem da tarifa a uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira.
O que está em disputa na audiência
O relatório final da investigação comercial realizada pelos EUA — fundamentada na Seção 301 da legislação americana — deve ser divulgado até o dia 15 de julho. As audiências desta semana ocorrem na Comissão de Comércio Internacional dos EUA e estão organizadas em 14 painéis, contando com mais de 80 participantes, incluindo instituições como a Associação Brasileira da Indústria do Arroz e o Conselho dos Exportadores de Café, além de representantes dos setores de etanol e cana-de-açúcar.
A estratégia dos setores presentes é apresentar um argumento econômico central: as tarifas não resolvem disputas comerciais legítimas e ainda impactam negativamente a inflação nos Estados Unidos ao encarecer insumos essenciais — como café solúvel e etanol de milho — das quais diversas cadeias produtivas americanas dependem. Os empresários também querem deixar claro seu interesse em negociar áreas como etanol, minerais estratégicos, segurança energética e propriedade intelectual como uma alternativa à manutenção das tarifas.
Nesse contexto técnico, construído após meses de articulação com dados setoriais relevantes, surge a preocupação com o “efeito Flávio”: qualquer desvio nas falas técnicas para questões político-eleitorais brasileiras pode comprometer os argumentos apresentados pelo setor produtivo ao USTR como sendo pragmáticos e apartidários.
Um objetivo pouco disfarçado
Conforme informações obtidas pela CNN Brasil, há um cálculo político por trás das ações de Flávio: primeiro, evitar a imposição da tarifa adicional; segundo — possivelmente mais importante para sua pré-campanha — garantir algum reconhecimento público de que as tarifas não estão associadas à sua atuação em Washington, tentando dissociar seu nome desse episódio que já é visado pelo candidato petista para exploração eleitoral. É relevante observar que sua visita aos EUA em junho coincidiu exatamente com a aplicação das tarifas — fato interpretado por analistas como um desgaste maior do que qualquer benefício político gerado.
O governo brasileiro decidiu não se pronunciar oficialmente durante as audiências desta semana: o Ministério das Relações Exteriores optou por concentrar seus esforços em canais diplomáticos diretos com Washington e manteve apenas diplomatas da embaixada como observadores das sessões. Essa escolha reflete uma estratégia clara de evitar dar visibilidade institucional a um debate que corre o risco crescente de ser dominado pelas disputas eleitorais brasileiras previstas para 2026.