O Bank of America (BofA), o segundo maior banco dos Estados Unidos, afirmou que a questão fiscal é o principal foco da eleição brasileira e recomendou um ajuste nas contas públicas correspondente a 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Este ajuste deve ser direcionado ao Orçamento federal, que sustenta direitos e investimentos públicos após o primeiro turno das eleições, agendado para 4 de outubro.
No relatório divulgado, a instituição analisa o otimismo do mercado em relação ao Brasil na fase final da campanha eleitoral. Atualmente, o Ibovespa está em torno de 183 mil pontos, refletindo uma probabilidade de 40% de um cenário otimista previsto pelos analistas da instituição, um aumento em relação aos 27% registrados um mês atrás.
O documento destaca que “os preços do mercado estão próximos de incorporar uma probabilidade de 40% de um mercado em alta”. Embora reconheça que a valorização nas últimas semanas acompanha uma melhora no sentimento em relação ao Brasil, o banco ressalta que a disputa eleitoral permanece incerta e repleta de desafios significativos.
O otimismo já está no preço da Bolsa
Desde as mínimas do ano, o índice acumulou uma alta aproximada de 12%, impulsionada pela recuperação gradual dos fluxos estrangeiros. O índice ainda se encontra cerca de 6% abaixo dos níveis máximos observados em 2026, refletindo tanto a magnitude das expectativas quanto seus limites.
De acordo com as análises do banco, não é a eleição que impulsiona uma nova rodada de valorização, mas sim a política monetária. Para que este cenário otimista se concretize, seria necessário um ciclo mais robusto de cortes na taxa Selic, visto que os juros reais continuam próximos aos níveis mais altos históricos.
“Uma Selic de 10,50% no final de 2027 seria parte desse cenário otimista”, afirma o relatório. Além disso, projeta-se um crescimento ligeiramente superior nos lucros e uma reavaliação positiva dos múltiplos atuais. Em contrapartida, um cenário adverso hipotético não prevê cortes adicionais na taxa de juros e manteria múltiplos deprimidos.
Embora os dois cenários sirvam como referências para análise e não como previsões eleitorais diretas, o documento sugere ações que o próximo governo deve considerar em relação ao Orçamento.
Gestores apostam na alta, mas não compram
A pesquisa mais recente do BofA com investidores da América Latina revela um otimismo cauteloso. Cerca de 73% dos entrevistados acreditam que o Ibovespa superará os 180 mil pontos até o fim do ano, comparado a apenas 34% no levantamento anterior.
No entanto, apenas 30% dos gestores estão dispostos a aumentar sua exposição à Bolsa nos níveis atuais; a maioria prefere aguardar uma correção ou mais clareza sobre os resultados eleitorais.
A conta de R$ 380 bilhões por ano
O foco central do relatório está fora das ações da Bolsa. Os analistas projetam que a dívida bruta do setor público poderá alcançar 83,1% do PIB até o final de 2026, comparado aos 71,4% quando o governo atual assumiu.
Para estabilizar essa trajetória ascendente da dívida, seria necessário implementar um ajuste fiscal em torno de 3,5% do PIB. Considerando o PIB projetado para 2024 em R$ 10,9 trilhões pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), isso corresponderia a cerca de R$ 380 bilhões anualmente.
O banco admite que esse ajuste representa um desafio significativo. Mais de 90% das despesas federais são obrigatórias e incluem aposentadorias, pensões e benefícios assistenciais, limitando severamente as possibilidades de corte nos gastos.
<p“O fato da dívida atingir 83% do PIB reafirma que a questão fiscal é fundamental nesta eleição”, conclui o BofA. O relatório acrescenta que qualquer reação inicial positiva da Bolsa frente a um governo considerado disciplinado não será suficiente para sustentar essa valorização sem medidas fiscais claras e viáveis.
Quem paga pela alta que o mercado quer
A análise apresentada transforma preferências por portfólios em diretrizes para governança. O banco defende juros menores, lucros crescentes e dívida controlada com foco no Orçamento federal como responsável por essa combinação desejada.
A complexidade dessa situação é evidente no próprio relatório. Em um orçamento onde mais de 90% das despesas já estão determinadas por lei, realizar um ajuste fiscal equivalente a 3,5% do PIB só seria possível através da redução das verbas destinadas a investimentos sociais ou mudanças nas regras que garantem direitos existentes.
Antes mesmo da votação nas urnas acontecer, uma instituição financeira norte-americana já delineou as exigências para quem vencer as eleições. A necessidade por cortes se apresenta como condição essencial para a valorização esperada pelos investidores, e as discussões sobre os montantes a serem cortados deverão dominar as atividades no Congresso Nacional desde o primeiro dia após as eleições.
Até o otimismo tem teto
Os preços atuais já não são considerados baixos segundo os próprios critérios da instituição. O Ibovespa sem incluir ações ligadas às commodities negocia aproximadamente 7% acima da média histórica ajustada pela taxa de juros; além disso, há previsões negativas referentes aos lucros corporativos projetados para 2027 como riscos relevantes.
A partir do dia seguinte ao primeiro turno eleitoral em outubro, as exigências passarão da teoria à prática no Congresso e no Planalto. A necessidade dos R$ 380 bilhões anuais pressionará um orçamento onde restam menos de 10% de espaço livre para novas decisões.