O setor automotivo de luxo no cenário mundial está passando por transformações significativas, impulsionadas pela introdução do primeiro veículo totalmente elétrico da Ferrari e pelo crescimento acelerado das montadoras chinesas. Essas empresas já se destacam em segmentos de alta performance, apresentando ciclos de desenvolvimento extremamente rápidos e tecnologia avançada. Em uma entrevista ao Podcast Canaltech, Fernando Pfeiffer, diretor de novos negócios da Bright Consulting, elucidou a entrada da famosa marca italiana no campo dos veículos elétricos.
Pfeiffer enfatizou que a introdução de carros elétricos de alta performance muda de maneira definitiva os critérios competitivos do mercado. As montadoras chinesas operam com ciclos de desenvolvimento que variam entre 18 e 24 meses, um ritmo que as tradicionais fabricantes europeias têm dificuldade em acompanhar. A recente edição do Salão de Pequim destacou mais de 1.400 veículos e contou com 180 lançamentos globais simultâneos, o que evidencia a capacidade industrial e inovadora da China.
A eficiência na produção se baseia na utilização de plataformas modulares que combinam pacotes de baterias em alumínio fundido, motores e rodas em um sistema otimizado. A engenharia envolvida na propulsão elétrica possibilita a entrega instantânea de torque a partir do zero giro, com alguns veículos alcançando até 1.000 cavalos de potência. Exemplos como o modelo U9 Extreme, da fabricante chinesa BYD, conseguem ultrapassar a marca dos 496 km/h, competindo diretamente com os hiperesportivos mais renomados do mundo.
As novas células de íons de lítio oferecem autonomia que pode chegar a mil quilômetros e são capazes de realizar recargas completas em apenas 5 a 10 minutos, solucionando uma das principais dificuldades para a popularização dos automóveis elétricos. Pfeiffer prevê que os carros esportivos movidos a combustão sofrerão um processo de elitização, tornando-se bens exclusivos para poucos privilegiados que podem utilizá-los em ambientes controlados. Essa evolução no setor elétrico é comparável à transição histórica da tração animal para motores térmicos no final do século XIX, quando o novo modelo tornou obsoleto o anterior.
A Ferrari está estruturando seu novo projeto elétrico com a contratação de um designer que possui experiência na Apple, indicando a relevância da união entre software, design e experiência do usuário. Para fechar a lacuna tecnológica em relação às concorrentes asiáticas, marcas europeias tradicionais precisam concentrar esforços na criação de experiências personalizadas enquanto preservam suas características distintivas, conforme aponta o consultor. O comportamento dos consumidores mais jovens também estimula o crescimento dos modelos de mobilidade como serviço, diminuindo o desejo pela posse imediata em favor do uso sob demanda.