No Brasil, o setor voltado para a fé e soluções milagrosas sempre encontrou terreno fértil. Contudo, o cenário atual vai além das simples transações do mercado de desenvolvimento pessoal. Estamos testemunhando a formação de uma nova direita no contexto pós-Lula e pós-Bolsonaro, uma alternativa que se solidificará ao final deste ciclo de polarização intensa.
À primeira vista, nomes como Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Flávio Bolsonaro podem parecer pertencer a esferas políticas distintas. Essa percepção é um erro. Ao analisarmos esses indivíduos mais profundamente, fica evidente que não existem distinções programáticas significativas entre eles. Todos compartilham uma mesma agenda: o desmantelamento do Estado social, a desregulamentação extrema, uma moralidade punitiva seletiva e a submissão da esfera pública às regras do mercado.
A verdadeira diferença reside na abordagem adotada por cada um. O que temos é uma divisão funcional de tarefas, onde cada figura representa um aspecto distinto da plataforma da alt-right, buscando atrair diferentes segmentos do eleitorado. Caiado representa a velha oligarquia com um toque tecnocrático; Zema incorpora o gerencialismo corporativo e a frieza das negociações comerciais; Flávio Bolsonaro explora o ressentimento militarizado associado à sua linhagem familiar; Renan Santos ativa a militância digital conectada pela guerra cultural e pelo sarcasmo. No entanto, é na esfera da autoajuda que se encontra o verdadeiro ponto de inflexão, um fenômeno que só pode ser compreendido à luz das inovações algorítmicas promovidas por Pablo Marçal.
A colaboração entre Augusto Cury e Pablo Marçal revela a estrutura subjacente dessa nova direita. O aumento repentino na presença digital de Cury, autor renomado no campo da autoajuda desde os anos 90, não ocorreu por acaso; é fruto de uma aliança estratégica. Marçal, especialista em algoritmos de engajamento agressivo e viralidade, transferiu sua máquina digital para o universo de Cury. Em troca? O apoio intelectual de um dos autores mais populares do Brasil para um projeto político ambicioso, que já menciona Cury como possível ministro da Educação.
Essa junção elucida as dinâmicas da alt-right atual. Marçal traz consigo técnicas de tráfego pago e uma estética provocativa focada na economia da atenção; enquanto Cury contribui com sua credibilidade ao oferecer “paz interior”. Juntos, eles realizam uma mudança metodológica crucial: transitam da direita confrontacional para uma abordagem mais sedutora e terapêutica.
<pPor esse motivo, Augusto Cury emerge como o elemento mais ameaçador desse arranjo. Sua figura funciona como um “Cavalo de Troia” neoliberal. Vestindo sua mensagem com jargões inofensivos sobre gestão emocional e superação da ansiedade, ele consegue infiltrar uma agenda política conservadora nas mentes desavisadas.
A estratégia de Cury transforma questões estruturais — como desemprego, precariedade laboral e desmotivação social — em problemas estritamente pessoais. Sob sua perspectiva como “vendedor de sonhos”, a desigualdade social deixa de ser vista como falha sistêmica para se tornar simplesmente uma limitação individual em “desacelerar os pensamentos”. Essa privatização do sofrimento humano serve aos interesses do capital, agora potencializada pela expertise digital de Marçal.
Ao comercializar política disfarçada em formato de autoajuda, Cury invade o debate público sem precisar realmente dialogar. Ele esvazia a pólis, substituindo-a pelo divã da aceitação produtiva. Quando essa influência comum se associa formalmente aos mecanismos obscuros da internet, a extrema direita conquista algo que sempre buscou: uma linguagem universal e atrativa capaz de anestesiar as resistências em uma sociedade fatigada. O perigo não se apresenta mais em fardas ou discursos agressivos; agora tem milhões de seguidores e utiliza estratégias sofisticadas para engajar seu público enquanto oferece conselhos sobre bem-estar. O “vendedor de sonhos” começou a comercializar pesadelos; e o pior é que muitos estão aderindo a isso. A toxicidade neoliberal da direita acabou de ganhar uma versão “sem açúcar”: mais doce, mais viciante e infinitamente mais letal.
*Chico Cavalcante é jornalista.
**Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum.