Existem líderes que marcam a história, seja por suas conquistas ou por se tornarem alvo de piadas. Donald Trump, em uma demonstração de imprudência, decidiu iniciar um conflito sem propósito com a antiga Pérsia, um território conhecido por abrigar os sepulcros de grandes governantes. Sem perceber, ele seguiu os passos de Creso e o Oráculo de Delfos, lembrando o que Karl Marx escreveu em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte: “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.
Creso, que é frequentemente lembrado como uma figura cômica na história, enviou um mensageiro para consultar o Oráculo de Delfos. O emissário questionou se o rei deveria atravessar o rio e partir para a guerra contra os persas. A resposta do oráculo foi ambígua: ao atravessar o rio, Creso destruiria um grande império. Satisfeito com a parte da resposta que alimentava sua ambição, o rei interpretou que estava destinado a derrotar a Pérsia. Ele cruzou o rio e iniciou uma guerra que resultou na destruição não da Pérsia, mas do seu próprio império.
De maneira semelhante, embora com menos formalidade e mais alarde nas redes sociais, Trump fez uma previsão dramática: “Uma civilização inteira morrerá esta noite e nunca mais será ressuscitada.” Essa profecia se concretizou, mas a civilização que sucumbiu não era aquela que ele esperava.
Influenciado pelo fervor bélico de Netanyahu e pela necessidade de gerar notícias sensacionais — talvez também visando desviar a atenção das revelações sobre Epstein — Trump decidiu transformar a guerra em um espetáculo midiático. Ele acreditava que o Irã agiria como um adversário frágil, temendo o poder americano; pensava que recuaria diante das ameaças e lhe proporcionaria uma vitória rápida para mostrar aos seus apoiadores. Na verdade, sua decisão foi tomada mais pela arrogância imperial do que por uma análise estratégica adequada.
Entretanto, é bem sabido há milênios que a Pérsia é um cemitério para tiranos conquistadores.
Apesar dos alertas recebidos, Trump foi surpreendido pela força da resposta iraniana. O Irã reagiu com coragem e estratégia, atacando um ponto crítico da economia global: o estreito de Ormuz. O país demonstrou uma compreensão fundamental que muitas vezes é esquecida em Washington: em guerras modernas, não é suficiente apenas contar caças avançados; é igualmente crucial avaliar quem pode suportar os custos políticos e econômicos por mais tempo.
Ao restringir o fluxo vital de energia mundial, Teerã atingiu os mercados financeiros e revelou a fragilidade da imagem de controle dos Estados Unidos. Com essa percepção em ruínas, as certezas dos aliados também desmoronaram junto com a aura do império americano. Enquanto Trump prometia invencibilidade, entregou inflação geopolítica e desgaste interno crescente entre seus apoiadores.
A segunda humilhação foi ainda mais acachapante no campo financeiro. O Irã mostrou astúcia tática ao empregar armamentos mais antigos para saturar as defesas antiaéreas antes de lançar mísseis e drones mais sofisticados. Isso obrigou os EUA a gastar somas exorbitantes para neutralizar equipamentos de custo relativamente baixo; enquanto um drone pode ser barato, interceptores demandam investimentos significativos.
A guerra transcendeu meramente um confronto militar e transformou-se em uma auditoria implacável da irracionalidade americana. A potência dominante do mundo teve que encarar desconfortavelmente a possibilidade de perder por exaustão financeira e militar; chegou ao ponto de precisar retirar baterias anti-aéreas da Coréia do Sul.
É irônico notar que durante anos os Estados Unidos ensinaram ao mundo que vencer guerras dependia essencialmente da capacidade industrial e financeira. Agora se viram frente a frente com um adversário capaz de usar essa mesma lógica contra eles, mesmo apresentando uma capacidade inferior em ambas as áreas.
A coreografia diplomática também falhou miseravelmente nesta ocasião. Em tempos passados, essa guerra teria sido marcada pelo subserviente apoio ocidental: declarações grandiosas acompanhadas por adesões tímidas e algum respaldo logístico discreto sob pretextos nobres como segurança ou civilização. Contudo, dessa vez faltou entusiasmo genuíno e convicção; além disso, não houve aquela antiga disposição automática à submissão. A “guerra maluca” proposta por Trump desgastou aquilo que poderia ser considerado o principal ativo estratégico dos EUA: a expectativa de solidariedade internacional.
Simultaneamente, o Irã demonstrou notável resiliência diante da pressão externa; não colapsou nem implodiu sob as circunstâncias adversas. Não cedeu à derrota esperada por Trump; ao contrário, evidenciou preparo estratégico ao unir apoios discretos e neutralidades vantajosas enquanto criava constrangimentos regionais para Washington. Atividades estratégicas foram observadas na China, Rússia e Paquistão conforme seus próprios interesses; países centrais optaram pela cautela em vez da submissão incondicional. Mesmo onde não houve apoio explícito ao Irã, havia resistência à obediência imediata às diretrizes americanas.
O resultado foi típico quando potências em declínio tentam compensar sua perda de autoridade através do barulho excessivo: a guerra começou como uma demonstração ostensiva de força mas terminou revelando fraqueza.
No desfecho final do conflito, viu-se o Irã proclamando vitória enquanto Trump era forçado a aceitar um resultado contrário às suas expectativas grandiosas. A humilhação veio através das redes sociais e canais diplomáticos diante dos olhos do mundo todo em tempo real. Trump tornou-se como Creso moderno ao prever prematuramente o colapso de um império — mas esse império era o seu próprio.
Trump consultou seu próprio Oráculo de Delfos: seu ego inflado e orgulho pessoal. Confundiu seu delírio com profecia e percebeu tarde demais que havia um império destinado a sair diminuído dessa jornada.
No fim das contas, não era isso que ele havia imaginado.