A Petrobras está se reestabelecendo no mercado de diesel ao realizar vendas diretas para grandes consumidores, mesmo sem possuir uma distribuidora própria.
No primeiro trimestre de 2026, essa estratégia ganhou impulso, com as vendas diretas de diesel B por parte dos produtores a grandes clientes aumentando de 1,1 milhão para aproximadamente 23,4 milhões de litros. Esses dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, conforme relatado por veículos especializados.
Esse crescimento expressivo de quase 1.900% evidencia uma transformação significativa em um setor que historicamente depende das grandes distribuidoras. O diesel B, que é a mistura de diesel fóssil e biodiesel vendida ao consumidor final, representa uma fatia importante desse mercado.
Dentre os exemplos mais emblemáticos está o contrato entre a Petrobras e a Vale. Informações indicam que este acordo para abastecer as operações da mineradora contribuiu consideravelmente para o aumento das vendas diretas no Brasil, sendo Minas Gerais responsável por cerca de 90% do volume total registrado nesse período.
Essa abordagem reflete os esforços da Petrobras para restabelecer o contato direto com os grandes consumidores após ter se afastado do controle da BR Distribuidora, atualmente chamada Vibra. A venda dessa participação fez parte de um ciclo de desinvestimentos que limitou a presença da estatal em setores considerados estratégicos na cadeia de combustíveis.
Em vez de contar com uma rede própria de distribuição, a companhia opta por utilizar sua capacidade logística, produção nacional e acordos com grandes empresas para expandir sua atuação comercial. O objetivo é aumentar as vendas, fidelizar clientes e diminuir a dependência de combustíveis importados.
Esse avanço tem gerado desconforto entre as grandes distribuidoras. De acordo com informações recentes, empresas representadas pelo Sindicom — que inclui nomes como Vibra, Raízen e Ultrapar — alegam haver uma assimetria regulatória, já que os produtores não enfrentam as mesmas obrigações das distribuidoras na aquisição dos créditos de descarbonização do RenovaBio (CBios).
A disputa vai além de um simples conflito comercial. O mercado de diesel é crucial para o Brasil, tendo um papel fundamental no transporte rodoviário, na mineração, nas máquinas agrícolas, nos ônibus e nas obras públicas, além de ser vital para a cadeia logística nacional.
No ano de 2025, a Petrobras vendeu em média 1,747 milhão de barris por dia de derivados no mercado interno, representando um aumento de 1,6% em comparação a 2024. Diesel, gasolina e querosene de aviação foram responsáveis por 74% dessas vendas.
Esse dado sublinha a importância do diesel na economia brasileira. Ao ampliar sua atuação neste segmento específico, a Petrobras não está apenas competindo por mercado; está também impactando um dos principais custos da produção nacional.
Para o Brasil, isso tem consequências diretas. Quanto maior for a capacidade da Petrobras em fornecer combustível nacional aos grandes consumidores, maior será o controle do país sobre essa área estratégica que atualmente enfrenta pressões decorrentes das importações e das flutuações nos preços internacionais.
A questão também envolve aspectos relacionados à soberania nacional. Uma estatal integrada com forte capacidade de refino e canais comerciais eficientes é fundamental para reduzir as vulnerabilidades externas diante de crises no setor petrolífero ou choques logísticos globais.
O aumento nas vendas diretas de diesel indica que a Petrobras encontrou uma maneira eficaz de recuperar terreno após perder sua distribuidora. O próximo debate será em torno da regulação: se essa recuperação será vista como uma ameaça para os intermediários ou como uma medida necessária para garantir a segurança energética do país.