Brasil sem capacitação digital se torna refém de potências estrangeiras

Um equívoco comum no debate público brasileiro é encarar a formação digital como um tema restrito ao âmbito educacional. Para aqueles que têm um olhar atento sobre a evolução da economia digital e que se dedicam à formulação de políticas públicas para tecnologia e jogos eletrônicos, essa questão reveste-se de uma profundidade maior. Atualmente, a formação digital é uma agenda estratégica essencial para o país, envolvendo também aspectos de soberania.

No Brasil, há uma tendência consolidada de consumir tecnologias desenvolvidas fora do país. Plataformas, sistemas e ferramentas que moldam nossa vida digital cotidiana são, em grande parte, criadas em outros lugares, seguindo normas que não controlamos e atendendo a interesses que nem sempre se alinham aos nossos. Essa dinâmica gera uma dependência silenciosa.

Essa dependência não se reflete apenas nos números da balança comercial ou em indicadores econômicos; ela se manifesta na maneira como nos comunicamos, aprendemos, produzimos e até formulamos soluções para os desafios que enfrentamos. Além disso, esse fenômeno inicia-se muito antes da entrada no mercado de trabalho — sua origem está na educação.

Atualmente, milhões de jovens brasileiros são formados anualmente sem que haja garantias de que eles dominem realmente as linguagens e ferramentas que compõem o universo digital. Não basta saber utilizar aplicativos; é crucial entender lógica, programação, criação de conteúdo, design de sistemas e desenvolver um pensamento crítico em relação à tecnologia. Sem essa base sólida, o Brasil permanece na posição de mero consumidor.

Um dado relevante ilustra bem esse cenário: conforme a pesquisa TIC Empresas 2024, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 76% das empresas nacionais que utilizam inteligência artificial fazem uso de soluções prontas disponíveis no mercado. Além disso, 56% dependem de fornecedores externos para desenvolver ou adaptar seus sistemas, enquanto apenas cerca de 20% criam a tecnologia internamente. Isso revela que mesmo com o crescimento econômico no setor digital, uma parcela significativa do valor gerado não se fixa no país — um fato com implicações diretas.

A falta de domínio sobre a tecnologia resulta na ausência de controle sobre as regras estabelecidas. Sem poder definir essas regras, não conseguimos direcionar o desenvolvimento tecnológico. Essa falta de controle significa abrir mão da autonomia. Contudo, o Brasil possui os recursos necessários para reverter essa situação.

O Brasil conta com uma das maiores populações conectadas do planeta, uma juventude criativa e habituada a ambientes digitais e um ecossistema já demonstrou capacidade organizacional quando há vontade política. O setor de jogos eletrônicos exemplifica bem essa realidade: ao longo dos anos, desenvolvedores brasileiros têm criado jogos e fundado estúdios sem reconhecimento formal. Com a aprovação da Lei 14.852/2024 — conhecida como o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, cuja defesa foi intensa por parte de diversos setores — o país começou a estruturar este campo como uma política pública efetiva, possibilitando investimento, formação e expansão.

No entanto, esse avanço deve transcender setores específicos; é fundamental tratar a formação digital como uma política estruturante abrangente. Isso implica incluir programação e raciocínio computacional desde os primeiros anos escolares, capacitar professores para lidar com essas novas linguagens e estreitar laços entre as escolas e o setor produtivo para criar oportunidades reais para os jovens inserirem-se numa economia cada vez mais tecnológica.

É igualmente importante reconhecer que a educação digital abrange aspectos técnicos, culturais, econômicos e políticos. Preparar jovens para o mundo digital é capacitá-los a compreender o funcionamento das plataformas que usam, questionar modelos de negócios existentes e proteger suas informações pessoais — além disso, fomentar sua criatividade é essencial; é na habilidade de criar que reside a verdadeira diferença entre dependência e autonomia.

Paises atualmente à frente na economia digital não chegaram lá por acaso; investiram consistentemente em formação profissional adequada, unindo educação ao desenvolvimento econômico e priorizando a tecnologia nas políticas nacionais. O Brasil ainda não atingiu essa escala necessária para um progresso significativo; contudo, já demonstrou ser capaz de avançar quando organiza suas prioridades estratégicas. O grande desafio agora é transformar a formação digital em uma política estatal contínua, integrada e com objetivos claros.

Essa discussão não diz respeito apenas ao futuro; ela define nosso presente. Sem investimento em formação digital adequada, o Brasil continuará preso à dependência tecnológica. Com ela implementada corretamente, pode disputar espaços significativos no cenário global. O talento está presente; falta apenas decisão política.

*Márcio Filho é presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) e diretor executivo da GF CORP, empresa focada em soluções gamificadas. Com mais de duas décadas de experiência sólida na área, ele se destaca pelo seu engajamento social em prol das políticas públicas voltadas ao setor de jogos eletrônicos e pela participação ativa na elaboração do Marco Legal dos Games. É especialista em Games e Sociedade e atua diretamente no desenvolvimento tecnológico como ferramenta potencializadora da educação.

 

By Ribeirão News

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