Chega de Vorcaro! As rachaduras da democracia brasileira em ruínas

“Cota zero
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?” 

(Carlos Drummond de Andrade)

“Stop! A democracia brasileira parou, ou foram os algoritmos?”

(Fabio Dal Molin)

O Brasil está rachado. Mas não, não estou falando da tal “polarização” tão propagada, de forma rasa, pelos noticiários. A metáfora aqui vem da construção civil: dos prédios antigos, das ruínas aparentemente invisíveis. Em certas situações, uma fissura pode parecer apenas um defeito superficial, passível de correção estética. Em outras, ela denuncia comprometimentos mais profundos na estrutura do edifício. Este artigo parte da hipótese de que a crise política brasileira contemporânea deve ser lida segundo essa segunda chave: não como uma sequência de acidentes eleitorais, mas como manifestação visível de uma crise estrutural que atravessa a economia, o trabalho, a subjetividade, a democracia e as formas de mediação da realidade.

As eleições de 2014, 2018, 2022 e o horizonte de 2026 compõem, nesse sentido, uma série histórica marcada pela erosão dos pactos que sustentaram a Nova República. O acirramento da polarização, o fortalecimento de discursos autoritários, a crise da representação e a reorganização digital da vida pública indicam que o problema não se limita à disputa entre programas de governo. Trata-se de investigar de que modo a forma política democrática é tensionada quando a própria forma social capitalista passa a operar em condições de esgotamento de seus antigos mecanismos de integração.

As rachaduras invisíveis da barbárie brasileira articulam três planos. O primeiro é econômico-social: a crise da sociedade do trabalho, a precarização e a uberização indicam que o emprego formal, a cidadania salarial e as expectativas de mobilidade social já não funcionam como promessas universais. O segundo é político-institucional: a democracia representativa aparece diante de limites cada vez mais visíveis, pois administra conflitos que não consegue resolver em sua base material. O terceiro é tecnopolítico: as plataformas digitais reorganizam os regimes de percepção, pertencimento e conflito, produzindo realidades paralelas, afetos de guerra e novas formas de mobilização de massas.

A partir dessa imagem, podemos diferenciar sintomas superficiais de sintomas estruturais. Na psicanálise, costuma-se distinguir o sintoma que pode desaparecer com tratamento daquele que participa da própria constituição do sujeito. Transposta para a política, essa distinção permite pensar fenômenos como autoritarismo, racismo estrutural, machismo estrutural e crise econômica não como desvios ocasionais, mas como manifestações de formas sociais mais profundas.

Tomar as eleições como sintoma significa recusar uma leitura imediatamente moralizante ou puramente institucional da conjuntura. Não se trata de negar a importância dos atores políticos, dos partidos, das campanhas e do sistema eleitoral, mas de situá-los em uma totalidade social contraditória. O sintoma é aquilo que aparece na superfície e, justamente por aparecer, permite seguir os rastros de uma estrutura menos visível. A análise política, nesse sentido, precisa interrogar o que se expressa nos resultados eleitorais, nos afetos mobilizados, nas promessas de ordem, nas expectativas frustradas e na radicalização dos conflitos.

A categoria de totalidade é decisiva porque impede que a crise seja fragmentada em problemas isolados. A precarização do trabalho, por exemplo, não é apenas uma questão trabalhista: ela reorganiza a vida familiar, o tempo livre, os modos de adoecimento, a capacidade de organização coletiva e a relação dos sujeitos com a política. Do mesmo modo, a digitalização da esfera pública não é apenas um fenômeno comunicacional: ela altera as formas de reconhecimento, verdade, memória e pertencimento. A crise democrática, portanto, é inseparável da crise econômica, da crise ecológica, da crise subjetiva e da crise tecnológica.

Nossa análise da crise exige também distinguir conjuntura e estrutura. A conjuntura diz respeito às combinações históricas específicas: candidaturas, alianças, escândalos, decisões judiciais, campanhas midiáticas, movimentos sociais e eventos inesperados. A estrutura, por sua vez, designa as formas relativamente duradouras que condicionam essas combinações: a centralidade da mercadoria, a dependência do trabalho abstrato, a forma Estado, a propriedade privada, a racialização da desigualdade, a dominação patriarcal e a subsunção da vida à lógica da valorização.

Pois é. Mas, enquanto o edifício range, o vizinho da prima de um amigo de um político trocou mensagens com Vorcaro.

É aí que o chamado caso Vorcaro entra em cena. O episódio começou como uma investigação financeira sobre o Banco Master, mas rapidamente ultrapassou o perímetro bancário e se tornou um dos casos mais delicados da política brasileira recente. No centro da história está Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, instituição que cresceu de forma acelerada, atraiu investidores por meio de produtos de alto rendimento e passou a ser investigada por suspeitas de fraude, ativos sem lastro e manipulação de informações patrimoniais. A cautela, aqui, é indispensável: suspeitas e indícios investigativos não equivalem a condenações definitivas.

O vínculo com a política brasileira se intensificou quando veio à tona a tentativa de venda de 58% do Banco Master ao Banco de Brasília, o BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. A operação, estimada em bilhões de reais, levantou dúvidas sobre a possível transferência de riscos privados para uma instituição pública e sobre a real qualidade dos ativos do Master. A partir daí, o caso deixou de envolver apenas investidores, reguladores e executivos bancários: passou a tocar governadores, parlamentares, dirigentes de bancos públicos, fundos de previdência, órgãos de fiscalização e interesses eleitorais.

Essa dimensão política também decorre do momento em que o escândalo se expandiu. Em ano eleitoral, qualquer investigação que envolva banco público, empresários com acesso a autoridades e decisões do sistema de Justiça tende a ser capturada pela disputa entre governo, oposição e candidaturas presidenciais. O caso Vorcaro passou, assim, a funcionar como ponto de condensação: crise econômica, suspeitas de corrupção, guerra narrativa e questionamentos sobre os limites do poder judicial passaram a se alimentar mutuamente.

O epicentro da crise política foi uma armadilha de alta voltagem: a divulgação de mensagens e documentos que aproximaram o caso bancário do núcleo da disputa institucional. A partir daí, a esfera pública algorítmica brasileira, em seus diferentes espectros políticos, entrou em uma espécie de transe digital — um looping eterno, como um aplicativo de WhatsApp preso em modo de backup. Os arqueólogos digitais do futuro talvez vejam esse aplicativo, que ajudou a eleger presidentes e a corroer os restos de confiança pública, como uma das bombas simbólicas do século XXI. Anotem.

Estamos em 2026, e o Brasil talvez viva uma das eleições mais decisivas de sua história justamente quando as candidaturas parecem menos preparadas para enfrentar os problemas gigantescos que se aproximam. A lista é imensa: catástrofe climática, crise permanente do mundo do trabalho, assédio econômico do tecnofeudalismo de rapina e reação desmedida das formas coloniais de violência patriarcal. De um lado, está a ampla aliança formada em 2022 para derrotar Bolsonaro — o Governo Lula 3, cujo partido principal segue minoritário no Congresso Nacional e tem presença limitada em governos, prefeituras e legislativos da federação. De outro, estão os resíduos radioativos do bolsonarismo, gravitando em torno de herdeiros políticos de discurso miliciano. Quantas vezes a história do Brasil ouviu, em programa eleitoral de TV, um candidato à Presidência prometer segurança no bairro? Ao redor desse campo orbitam candidaturas satélites, com propostas estapafúrdias e pouca conexão com a dura realidade dos brasileiros e brasileiras prensados entre o Uber, a informalidade e mais de três horas de deslocamento até o trabalho. Entre os nomes com relevância eleitoral, quase ninguém parece disposto a enfrentar de modo frontal a escala 6×1.

Este texto foi escrito agora, com uma boa dose de decepção e desespero diante do futuro que se avizinha, mas também como súplica a candidatos, candidatas e formadores de opinião da esfera digital. O presidente que será eleito daqui a poucas semanas governará um país vulnerável, atravessado por pobreza, desemprego, endividamento e descrença pública — e ainda indicará quatro ministros do STF. Não se trata de detalhe institucional: trata-se de uma das chaves do próximo ciclo político brasileiro.

Então, chega de Vorcaro — não porque o caso seja irrelevante, mas porque ele não pode servir de cortina de fumaça para o edifício inteiro que range. O escândalo importa justamente porque revela algo maior: a democracia brasileira não está apenas em disputa; ela está sendo administrada sobre rachaduras que já não cabem sob a tinta da normalidade.

Referências consultadas: G1, “Entenda o caso Master, as acusações e as conversas de Vorcaro com Moraes”; G1, “Master: Mendonça sugere a ministros que novos elementos apresentados pela PF sejam analisados em plenário”; Valor Econômico, “Mendonça pede que PGR se manifeste sobre relatório da PF com mensagens entre Vorcaro e Moraes”; Poder360, “STF ignora caso Moraes e Vorcaro em 1ª sessão após relatório da PF”; STF Notícias, “STF autoriza nova fase da Operação Compliance Zero”; UOL, “Vorcaro diz a Mendonça que negócio com BRB seria benéfico e nega fraude”.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

By Ribeirão News

Deixe um comentário

Confira!