Lula vs Bolsonaro: compare os indicadores da economia nos dois governos

Entre os governos de Jair Bolsonaro (2019-2022) e Luiz Inácio Lula da Silva (iniciado em 2023), os indicadores econômicos seguiram trajetórias bastante discrepantes.

Mesmo considerando os efeitos drásticos da pandemia de Covid-19 sobre a desaceleração da economia mundial a partir de 2020, que afetou de maneira ampla a atividade econômica interna durante a gestão bolsonarista, os indicadores oficiais mostram diferenças fundamentais entre as prioridades e os resultados das políticas econômicas adotadas pelos dois governos, tanto no cenário macroeconômico quanto nos investimentos internos.

Quatro eixos de análise são especialmente importantes para evidenciar essas diferenças: emprego e renda, crescimento do PIB, inflação e investimentos estratégicos.

Crescimento do PIB

O Produto Interno Bruto, que indica o valor total dos bens e serviços finais produzidos em um país em determinado período, é provavelmente o indicador mais abrangente para comparar a atividade econômica, embora não determine sozinho se as condições de vida da população sofreram impacto real.

Na série atualmente divulgada pelo IBGE, o PIB brasileiro cresceu 1,2% em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro. Em 2020, sofreu uma retração de 3,3%, resultado do choque provocado pela pandemia. Em seguida, houve recuperação de 4,8% em 2021 e de 3,0% em 2022.

Já nos dois primeiros anos do terceiro mandato de Lula, o PIB avançou 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. Em 2024, a economia chegou a R$ 11,7 trilhões, enquanto o PIB per capita cresceu 3,0% em termos reais.

Ano Governo Crescimento real do PIB
2019 Bolsonaro 1,2%
2020 Bolsonaro -3,3%
2021 Bolsonaro 4,8%
2022 Bolsonaro 3,0%
2023 Lula 3,2%
2024 Lula 3,4%

Fonte: IBGE. Os valores refletem a série revisada das Contas Nacionais.

Outro elemento importante é a composição do crescimento. Em 2023, a agropecuária teve expansão extraordinária de 16,3%, enquanto serviços cresceram 2,8% e indústria, 1,7%.

Já em 2024, a composição mudou: serviços cresceram 3,7%, indústria 3,3%, enquanto a agropecuária recuou 3,2%.

O resultado de 2024 também foi acompanhado por aumento de 7,3% na Formação Bruta de Capital Fixo, indicador utilizado para medir a expansão da capacidade produtiva por meio de máquinas, equipamentos, construção e outros ativos de capital. A taxa de investimento chegou a 17,0% do PIB, indicando aumento da formação de capital no país.

Em termos de crescimento médio anual, o PIB brasileiro cresceu cerca de 1,4% ao ano durante o governo Bolsonaro, contra 3,3% ao ano entre 2023 e 2024. Mas a principal diferença é a análise qualitativa desse crescimento, que se distribuiu entre indústria e serviços no caso da gestão de Lula, caracterizada pela diversificação setorial e reativação dos investimentos.

A trajetória de crescimento durante o governo Lula 3, além disso, foi linear e superou as projeções iniciais do mercado (foi de 3,2% em 2023 para 3,4% em 2024), ancorada principalmente pela maior intensidade de mão de obra e pelo valor agregado dos serviços. É importante perceber, também, que a alta de 7,3% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) indica um crescimento impulsionado pela ampliação dos investimentos em capacidade instalada, infraestrutura e produção.

Emprego e renda

O mercado de trabalho mostra uma das diferenças mais expressivas entre os períodos. A série histórica atualizada do IBGE indica que a taxa média anual de desocupação foi de 11,8% em 2019, subiu para 13,8% em 2020 e alcançou 14,0% em 2021. Em 2022, começou uma forte redução, para 9,6%.

Nos dois primeiros anos de governo Lula, a queda continuou: foi de 7,8% em 2023 e de 6,6% em 2024. A taxa atingida em 2024 correspondeu ao menor nível médio anual da série histórica iniciada em 2012.

No fim de 2024, no trimestre encerrado em dezembro, havia 103,8 milhões de pessoas ocupadas, enquanto a taxa de desemprego estava em 6,2%.

A melhora do emprego veio acompanhada, além disso, de aumento do rendimento real.

Em 2024, o rendimento real habitual médio anual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.225, crescimento real de 3,7% sobre 2023. A massa de rendimento real habitual alcançou R$ 328,9 bilhões, alta de 6,5% e novo recorde da série histórica.

Entre os fatores positivos para o aumento da renda estiveram, segundo o IBGE, o mercado de trabalho aquecido, o reajuste do salário mínimo e a elevação da remuneração em setores mais qualificados.

Em 2022, por outro lado, durante a gestão de Jair Bolsonaro, o rendimento real habitual ainda estava em um dos menores patamares da série, enquanto a taxa de desemprego começava a recuar.

Desigualdade e políticas públicas

Outro indicador relevante é o coeficiente de Gini, que varia de 0 a 1: quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade de renda entre a população.

O índice chegou a 0,545 em 2018, antes do governo Bolsonaro. Na série mais recente do IBGE, ficou em 0,544 em 2019, 0,523 em 2020, 0,543 em 2021 e 0,517 em 2022 e 2023.

Em 2024, caiu para 0,506, o menor valor da série iniciada em 2012 na divulgação original do IBGE. Após atualização das projeções populacionais utilizadas pelo instituto, o indicador para 2024 foi revisado para 0,504.

Segundo o IBGE, programas de transferência de renda tiveram impacto importante na distribuição: em 2023, sem os benefícios de programas sociais, o Gini teria sido 0,555, contra 0,518 observado com os benefícios.

Em 2024, durante o governo Lula 3, o rendimento mensal real domiciliar per capita alcançou R$ 2.020, alta real de 4,7% sobre 2023 e maior valor da série.

Inflação

A inflação média aritmética dos quatro anos de Bolsonaro foi de aproximadamente 6,17% ao ano. Nos dois primeiros anos de Lula, ficou em aproximadamente 4,73%.

O pico de 2021 ocorreu em meio à combinação de desorganização das cadeias globais de produção, recuperação da demanda, choques de commodities e problemas de oferta, além de outros fatores que pressionaram os preços no período.

Em 2022, a inflação brasileira também sofreu pressão decorrente da guerra entre Rússia e Ucrânia, especialmente nos mercados de combustíveis e alimentos.

O governo Bolsonaro adotou medidas para reduzir o preço dos combustíveis, entre elas a limitação da alíquota do ICMS sobre combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo, além de medidas que afetaram a formação dos preços dos combustíveis. As medidas contribuíram para uma queda dos preços dos combustíveis e ajudaram a produzir deflação mensal em julho e agosto de 2022. O resultado foi uma desaceleração importante do IPCA no segundo semestre, que levou o índice anual para 5,79%.

No governo Lula, o IPCA terminou 2023 em 4,62%, mas voltou a acelerar levemente em 2024, quando chegou a 4,83%. Alimentação e bebidas foram o principal foco de pressão no último ano, com alta de 7,69% e impacto de 1,63 ponto percentual no índice geral.

Ainda assim, a inflação média dos dois primeiros anos de Lula ficou abaixo da média dos quatro anos de Bolsonaro.

É importante dizer, além disso, que a dinâmica da inflação na atual gestão não pode ser atribuída só ao aumento da renda e do emprego ou à tributação de itens não essenciais; a variação dos preços resulta de uma combinação de fatores, entre eles as condições de oferta e demanda, o choque nos preços internacionais de commodities (inclusive da energia), variações de câmbio, clima, política monetária e medidas tributárias como a reforma que instituiu tarifas sobre itens não-essenciais, o “imposto do pecado”. 

Investimentos estratégicos

Enquanto a gestão de Jair Bolsonaro adotou uma estratégia fortemente baseada em concessões, privatizações, desestatização e participação privada em infraestrutura, Lula retomou uma política mais explícita de investimento público, financiamento estatal, política industrial e coordenação entre União, empresas públicas, estados e setor privado.

O principal instrumento do governo Bolsonaro foi o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Segundo dados da administração, foram 131 projetos e leilões promovidos entre 2019 e 2021, com cerca de R$ 822,3 bilhões em investimentos projetados para os anos seguintes, além de R$ 148,3 bilhões em outorgas e bônus.

Entre as concessões à iniciativa privada estiveram aeroportos, ferrovias, portos, rodovias, energia elétrica, petróleo e gás. A política de desestatização envolveu, de forma mais polêmica, a Eletrobras, cuja capitalização ocorreu em 2022.

O governo Bolsonaro argumentava que a operação permitiria à companhia recuperar capacidade de investimento e ampliar sua participação na expansão do setor elétrico.

A Eletrobras passou por um processo de capitalização em junho de 2022, que movimentou R$ 33,69 bilhões com a oferta pública de ações. A operação diluiu a participação da União no capital votante da companhia de 61,69% para 36,99%, e o governo deixou de ser o controlador da empresa. Embora não tenha se tratado de uma venda integral da companhia pelo governo, a desestatização por meio de capitalização diluiu a participação acionária da União na companhia a 40% (ou seja, não-majoritária). 

No último trimestre de 2022, a Eletrobras registrou prejuízo líquido de R$ 479 milhões, enquanto, no mesmo período de 2021, quando a companhia ainda era controlada pela União, havia registrado lucro líquido de R$ 610 milhões. 

O governo Lula adotou uma arquitetura diferente, com o principal programa de desenvolvimento nacional na figura do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), relançado em 2023 com previsão de R$ 1,8 trilhão em investimentos, dos quais R$ 1,3 trilhão até 2026 e R$ 500 bilhões depois de 2026. Os recursos são provenientes de diferentes fontes, incluindo o Orçamento Geral da União, financiamentos, empresas estatais e investimentos privados.

A carteira também passou a incorporar projetos em áreas estratégicas, como:

  • transporte e logística;
  • habitação;
  • saneamento;
  • saúde;
  • educação;
  • energia;
  • transição energética;
  • prevenção de desastres;
  • infraestrutura hídrica;
  • mobilidade urbana;
  • Defesa;
  • inovação e tecnologia.

No eixo Defesa, por exemplo, o Novo PAC prevê investimentos de R$ 53 bilhões em tecnologias e projetos estratégicos, incluindo programas das Forças Armadas.

O papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também mudou durante ambas as gestões.

No governo Bolsonaro, o banco passou por uma estratégia de redução de sua participação relativa no financiamento de longo prazo, em linha com a agenda de desestatização e de diminuição do papel do Estado na alocação de crédito.

Já no terceiro governo Lula, foi apresentado como instrumento de política industrial, inovação e transição energética.

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Só em 2024, o banco aprovou cerca de R$ 213 bilhões em crédito, alta de 22% sobre 2023, enquanto os desembolsos chegaram a R$ 133,7 bilhões, crescimento de 17%.

Em novembro de 2024, a arrecadação federal chegou a R$ 209,218 bilhões, com crescimento real de 11,21% sobre novembro de 2023. Entre janeiro e novembro, alcançou R$ 2,391 trilhões, crescimento real de 9,82%.

A Receita Federal identifica, entre os fatores que contribuíram para o aumento da arrecadação, o comportamento favorável de variáveis macroeconômicas, a retomada da tributação do PIS/Cofins sobre combustíveis e mudanças na tributação de fundos exclusivos e na atualização de bens e direitos no exterior, conforme as alterações promovidas pela Lei nº 14.754/2023.

By Ribeirão News

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