Há exatamente vinte anos e um dia, Telê Santana, uma figura inesquecível, faleceu. A última vez que o encontrei foi há bastante tempo, em Belo Horizonte, durante uma entrevista para o Jornal da Tarde, que guardo com carinho.
Naquela ocasião, Telê havia perdido parte de uma perna. Não recordo se foi a direita ou a esquerda, mas seu olhar estava distante e vazio. Ele comentou que muitas pessoas sentiam falta dele: “Estão nada, sou apenas um velho chato”, afirmou.
Ele realmente era isso, mas muito mais do que isso. Era uma pessoa de grande caráter, um conservador que me ensinou lições valiosas ao longo do tempo.
Uma das primeiras lembranças que tenho de Telê remete a 1971, quando ele assumiu o comando do Fluminense. Após pendurar as chuteiras e se tornar técnico, ele deixou as Laranjeiras pelo portão que sempre usava.
Foi então informado de que, como treinador, deveria utilizar outro acesso. Contudo, ele não aceitou essa imposição e insistiu em sair junto com os jogadores. A discussão se prolongou até que o portão destinado aos atletas foi fechado. Restava apenas a saída reservada a ele.
Telê não hesitou e decidiu pular o muro como um ladrão, recusando-se a aceitar tal deferência. No dia seguinte, teve sua liberdade garantida para sair por onde quisesse.
No início da década de 90, as coberturas diárias dos treinos eram bem diferentes das atuais. Havia uma abertura total para a imprensa. No entanto, quem ousasse pisar no campo em busca de entrevistas com os jogadores era prontamente advertido: “Vocês não sabem chutar uma bola; não venham aqui estragar o campo”.
Após conquistar os títulos mundiais em 1992 e 1993, Telê se tornou unanimidade no país. Durante sua campanha eleitoral em 1994, Lula comentou que desejava que o Brasil tivesse um selo de qualidade semelhante ao de Telê Santana – algo que Dilma também faria referência mais tarde ao falar sobre Felipão.
Corri para contar essa novidade a Telê na expectativa de receber um elogio ao Lula. Para minha surpresa, ele respondeu emocionado: “Agradeça a ele, mas diga que não voto nele de jeito nenhum. É muito despreparado”.
E assim era Telê.
Esse mesmo homem exigiu da diretoria a contratação do goleiro Rojas, envolvido em uma polêmica após simular uma contusão no jogo eliminatório entre Brasil e Chile em 1989 – partida decisiva para a Copa do Mundo. Ele alegou ter sido atingido por um sinalizador durante o jogo.
A farsa foi desmascarada e Rojas recebeu uma suspensão perpétua da FIFA. “Ninguém pode proibir alguém de trabalhar a vida toda. Vai trabalhar comigo”, declarou Telê em tom resoluto.
Certa manhã, Telê estava radiante com a visita de uma sobrinha sua e apresentou-a orgulhosamente a todos os presentes. A jovem estava acompanhada de um fotógrafo particular que registrou diversos momentos dela ao lado do tio.
Um mês depois, porém, Telê ficou extremamente decepcionado ao ver as fotos com sua sobrinha publicadas na Playboy, acompanhadas de outras bem mais sugestivas: “Ela me enganou; não esperava isso de alguém da família”.
Além disso, Telê era conhecido por sua dedicação ao trabalho e também por ser econômico; residia no Centro de Treinamentos para chegar cedo e economizar nos deslocamentos. O clube construiu uma quadra de tênis especialmente para ele treinar com o jovem Rogério Ceni como parceiro.
No entanto, seu estilo não era baseado em estratégias mirabolantes ou mudanças drásticas durante as partidas; seu foco era aprimorar os fundamentos dos jogadores: cruzar, chutar e passar corretamente.
A relação com Cafu retrata bem seu modo direto: irritado com tantas cobranças sobre o jogador na lateral direita, disse: “Vem cruzar você então”. E assim fez – acertou todos os cruzamentos.
Para Telê, vencer jogando sujo ou utilizando violência não era aceitável; ficava angustiado quando um jogador cometia faltas em adversários que estavam de costas para seu gol: “De costas não vai fazer nada! Estamos dando ao cara a chance de cobrar uma falta – muita burrice”.
Dessa maneira dirigiu o melhor time do mundo durante dois anos consecutivos, sempre fiel aos seus princípios. Um velho ranzinza? Sim! Mas também um homem íntegro – meu tipo inesquecível e querido por muitos que tiveram o privilégio de conviver com ele.