Nesta quarta-feira (1º), o governo dos Estados Unidos intensificou suas ações contra o PCC, ao bloquear uma rede brasileira que, segundo o Tesouro dos EUA, estaria envolvida na lavagem de mais de US$ 30 milhões provenientes do tráfico através de criptomoedas. Essa operação afeta dois cidadãos brasileiros, três empresas no Brasil e uma em Portugal, marcando um novo avanço da estratégia americana contra facções criminosas brasileiras.
Ação do governo Trump atinge PCC após aumento da pressão sobre facções
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos divulgou que essa rede operava entre São Paulo e a Flórida, facilitando o envio de recursos ilícitos para o Brasil em favor do Primeiro Comando da Capital. A ação foi executada pela Office of Foreign Assets Control (OFAC), responsável pelas sanções econômicas.
A sanção ocorre menos de trinta dias após os EUA aumentarem a pressão sobre organizações criminosas brasileiras. O governo americano classificou o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas, um movimento que possibilitou sanções mais severas e levantou questões sobre soberania, cooperação policial e o sistema financeiro.
Segundo as informações do Tesouro, o PCC é considerado uma ameaça “real e crescente” nos Estados Unidos, com especial destaque para a Flórida. A facção é apontada como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, com presença em diversas nações, incluindo Reino Unido, Turquia e Japão.
A medida adotada nesta quarta-feira transforma essa abordagem política em ações financeiras concretas: bloqueio de ativos, proibição de transações com indivíduos e instituições americanas, além da possibilidade de punição a bancos estrangeiros que realizem operações relevantes com os alvos identificados.
Rede brasileira teria movimentado US$ 30 milhões por meio de criptomoedas
O principal foco da OFAC é Victor Henrique de Oliveira Shimada, considerado pelo Tesouro como um intermediário entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais. O comunicado oficial revela que Shimada e sua organização teriam lavado acima de US$ 30 milhões em dinheiro ilícito oriundo dos Estados Unidos utilizando criptomoedas para transferir esses fundos para o Brasil.
A brasileira Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira também foi alvo das sanções. Descrita como parente próxima e associada de Shimada, ela teria atuado como secretária e intermediária nas coletas de dinheiro em espécie, além de fornecer apoio logístico às atividades de lavagem financeira.
Dentre as empresas afetadas estão Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda, além da companhia portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda. Todas essas entidades seriam controladas ou utilizadas por Shimada conforme indicado pela OFAC.
Pólos da operação: São Paulo e Flórida se destacam
A rede de lavagem associada ao PCC se sustentava principalmente em dois núcleos: um localizado na Flórida e outro em São Paulo. Em janeiro de 2026, seis membros desse grupo foram detidos pelo FBI na Flórida sob acusações relacionadas à lavagem de dinheiro.
A ação desta quarta-feira foca no núcleo paulista da operação. O governo americano aponta que a equipe liderada por Shimada recebia recursos ilícitos gerados nos EUA e utilizava empresas para evitar detecções, ocultar a origem dos valores e financiar o PCC no Brasil.
O comunicado também menciona que Shimada ficou sob prisão domiciliar no Brasil em janeiro de 2025 devido a uma das suas empresas, Victory Trading, que teria sido utilizada para lavar dinheiro obtido por meio da fraude publicitária relacionada a um clube de futebol brasileiro. O nome do clube não foi revelado.
Tesouro destaca investigação envolvendo operações financeiras significativas
Além dos US$ 30 milhões atribuídos ao grupo liderado por Shimada, o Tesouro destaca uma investigação realizada por autoridades brasileiras que revelou uma operação comercial voltada à lavagem controlada pelo PCC. Esse esquema contava com uma rede chinesa dedicada à distribuição de eletrônicos e uma plataforma chinesa de comércio eletrônico.
A quantia mencionada pelo governo americano supera os US$ 190 milhões lavados ao longo de sete meses. Esse dado fortalece a justificativa utilizada por Washington para implementar ações contra a facção e amplia as implicações das pressões norte-americanas sobre operações financeiras conectadas ao Brasil.
A investigação que resultou nas sanções foi coordenada pela Homeland Security Task Force, contando com a colaboração do escritório do FBI em Miami e da seção dedicada à lavagem de dinheiro do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Bancos fora dos EUA podem ser impactados pelas sanções
A decisão tomada implica que todos os bens e interesses relacionados aos alvos localizados nos Estados Unidos ou sob controle americano devem ser bloqueados e reportados à OFAC. Além disso, empresas controladas em 50% ou mais por indivíduos sancionados também ficam sujeitas ao bloqueio mesmo não estando mencionadas diretamente na lista.
O Tesouro ainda adverte que instituições financeiras internacionais poderão enfrentar sanções secundárias caso realizem transações significativas em nome dos alvos designados. Entre as possíveis punições estão restrições à abertura ou manutenção de contas correspondentes nos EUA.
Cabe destacar que esse avanço nas sanções ocorre no mesmo contexto político que levou Celso Amorim a se manifestar contra a decisão americana sobre classificar facções brasileiras como grupos terroristas. O assessor especial da Presidência expressou preocupação quanto ao risco dessa medida ser usada como “pretexto para intervenção”.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública também levantou preocupações sobre a soberania nacional, questionando a eficácia da aplicação das táticas contraterroristas no combate ao crime organizado brasileiro.
Esta representa a terceira ação da OFAC direcionada ao PCC e seus associados. Em dezembro de 2021, a facção foi incluída numa lista vinculada às sanções referentes ao combate à proliferação internacional das drogas ilícitas. Em março de 2024, Diego Macedo Gonçalves do Carmo foi sancionado pela OFAC devido ao seu suposto envolvimento na lavagem financeira da organização criminosa.