A nova reportagem do site The Intercept, que revela planilhas e o fluxo de caixa dos R$ 61 milhões repassados por Daniel Vorcaro ao fundo Havengate, comandado por operadores de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA, foi solenemente ignorada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que adotou uma nova estratégia de se calar para evitar novas mentiras e recuos, além de atuar no “andar de cima”, junto ao conluio neoliberal da chamada terceira via, que une Centrão, Faria Lima e mídia liberal.
Com a nova tática, Flávio Bolsonaro pretende evitar o que tem lhe custado tão caro quanto à exposição com o “mermão” Daniel Vorcaro: as mentiras ditas sobre o caso, que são atropeladas por fatos divulgados na sequência pelo próprio site e pelo ecossistema midiático.
A nova revelação grave, das planilhas que mostram o duto de dinheiro do Master para abastecer o fundo criado pelo clã para supostamente financiar o filme Dark Horse, sobre o pai, nos EUA, não mereceu sequer uma citação de Flávio Bolsonaro, que até esta quarta-feira (10) não foi indagado por jornalistas sobre o tema.
Desde que explodiu o escândalo do Banco Master, Flávio Bolsonaro coleciona uma série de mentiras e recuos sobre a relação com Vorcaro e o esquema, que desnudou a atuação de instituições da Faria Lima na lavagem de dinheiro para facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Antes da divulgação dos áudios, em março de 2026, quando foi descoberto seu nome na lista de contatos do celular de Vorcaro, Flávio Bolsonaro chegou a afirmar que sequer conhecia o banqueiro. Mais tarde, após a exposição das trocas de mensagens, o senador confidenciou que manteve o primeiro contato ainda em dezembro de 2024.
Em 13 de maio, poucas horas antes da divulgação do áudio em que aparece cobrando parte dos milhões de dólares chamando o banqueiro de “mermão”, Flávio surtou com pergunta sobre o patrocínio do Master a Dark Horse feita por repórter do Intercept. “É mentira, mentira”, disse.
No entanto, após a divulgação do áudio, Flávio admitiu conhecer o banqueiro e que teria mentido em razão de “cláusula de confidencialidade em patrocínio de filme”.
Em seguida, ressaltou que não haveria novas surpresas em sua relação com Vorcaro: “Não tem absolutamente nada”. Em nota, ele ainda afirma que “não promovi encontros privados fora da agenda” e “não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”.
Na sequência, em 19 de maio, Flávio Bolsonaro foi pego novamente na mentira, após o site Metrópoles divulgar a informação, confirmada posteriormente, que ele visitou Vorcaro quando usava tornozeleira eletrônica, após a primeira prisão em 17 de novembro. O encontro, na mansão do banqueiro em São Paulo ocorreu na véspera do dia em que o “01” foi ungido pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), como candidato do clã à Presidência.
Andar de cima
Na nova estratégia desenhada junto aos marqueteiros, Flávio Bolsonaro pretende acionar o “andar de cima”, tanto na Faria Lima quanto na esfera judicial, e ignorar os novos fatos sobre a relação com Vorcaro que estão vindo à tona.
O primeiro procedimento foi acionar o ministro Kássio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para censurar a pesquisa AtlasIntel, que mostrava o derretimento de sua candidatura pelo efeito Vorcaro.
A decisão do ministro, alçado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF), saiu no mesmo dia das novas revelações do Intercept, causando efeito contrário e revelando a dobradinha com Nunes Marques.
Em outra frente, Flávio Bolsonaro decidiu montar o escritório de campanha em São Paulo para ter mais acesso a empresários e comandantes da Faria Lima, investigada pela PF como o “andar de cima” do crime organizado.
Flávio ainda antecipou que deve escolher uma mulher para o Ministério da Fazenda, acendando aos desejos da burguesia neoliberal que querem a “Paulo Guedes de saias” na Economia.
A exigência do nome de Daniella Marques Consentino, braço direito de Paulo Guedes no ex-governo Bolsonaro, foi feita em fevereiro por interlocutores do chamado “mercado” que, em troca fariam a adesão em massa à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. A Fórum antecipou a informação.
Brazil Journal
A exigência do nome da economista aconteceu pela mídia liberal. Em 26 de fevereiro, coluna de Carla Araújo, no portal Uol, afirmara que a Faria Lima já se agita em torno de um nome que é “descrito por banqueiros e investidores como ‘dama de ferro’ e ‘PG [Paulo Guedes] de saias’.
Um dia depois, a ex-Jovem Pan Raquel Landim sugeria em sua coluna no Estadão: “E se Flávio Bolsonaro tivesse um ‘Paulo Guedes de saias’?”.
O movimento aconteceu dias depois de Flávio Bolsonaro acenar, com um artigo no site Brazil Journal – o porta-voz da Faria Lima -, que pretende seguir a cartilha de Javier Milei, adaptando a “motosserra” da campanha do argentino a um “tesouraço” na disputa presidencial no Brasil.
“Venho defendendo reiteradamente o TESOURAÇO”, escreveu Flávio, repetindo a velha receita que desperta a sanha neoliberal, que vinha sendo implementada por Guedes no governo do pai.
“Reduzimos impostos — como IPI, combustíveis e folha de pagamento — implementamos mecanismos de controle dos gastos públicos, mesmo em meio a uma pandemia, realizamos leilões de concessões e privatizações, aprovamos reformas estruturantes e marcos regulatórios setoriais, como o do saneamento, que viabilizou bilhões de reais em investimentos privados. Avançamos no arcabouço institucional, com destaque para a necessária independência do Banco Central”, papagueou o discurso trazido ao Brasil pelos militares na Ditadura e já ecoado por nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Fernando Collor de Mello em disputas eleitorais de outrora. Um museu de grandes novidades, mas que ainda serve para delírio do mercado.
Quem é a “Paulo Guedes de saias”
Por trás do apelido machista colocado pelos banqueiros e investidores – e ecoado por jornalistas mulheres na mídia liberal – está o nome de Daniella Marques Consentino.
Aprendiz de Guedes na iniciativa privada, a economista foi levada como braço direito ao “super” Ministério da Economia e usada pelo governo Bolsonaro para estancar a crise criada por Pedro Guimarães com o escândalo dos assédios sexuais, assumindo a Presidência da Caixa Econômica Federal. No comando do banco estatal, ela atuou ativamente na campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
Pedro Guimarães e Daniella Marques (ao fundo) em evento do Dia das Mulheres do governo Bolsonaro (Clauber Cleber Caetano/PR)
Alçada ao governo após trabalhar com Guedes na iniciativa privada – na Bozano Investimentos -, Daniella chegou a ser retida pela Polícia Legislativa em abril de 2019 ao tentar impedir a deputada Maria do Rosário (PT/PR) de falar com Guedes durante depoimento dele à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Daniella é uma espécie de “alter ego” de Guedes e, no governo, teria tido aval inclusive para negociar em seu nome como secretaria de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia.
Daniella Marques (Edu Andrade/ Ministério da Economia)
Do governo para a iniciativa privada
Com o fim do governo Bolsonaro, Daniella seguiu os passos do chefe na iniciativa privada. Guedes, como todo o mercado sabe, segue dando cartas no BTG. Tanto que ensaiou um acordo para ser sócio da Legend Capital, uma gestora de fundos afiliada ao BTG.
Em março de 2024, no entanto, o ex-super-ministro da Economia anunciou que atuaria como conselheiro sênior da Legend, “posição a partir da qual permanece atuando em temas estratégicos e pontuais, até pela proximidade longeva com os sócios”, segundo nota divulgada pela assessoria dele.
Para seu lugar, na Presidência do Conselho da Legend, escalou a fiel escudeira Daniella Marques.
Em setembro de 2025, o mesmo Brazil Journal fala da atuação da pupila de Guedes na Legend, “o wealth management que Pedro Salles e Túlio Lopez fundaram em 2020 e hoje assessora R$ 35 bilhões de clientes”, sem mencionar outro sócio: Roberto Justus.
Entre os “cases” da Legend, está a distribuição do patrimônio na conturbada separação do empresário Alexandre Correa da apresentadora Ana Hickmann, que foi cerimonialista da posse de Daniella no comando da Caixa Econômica.
Ana Hickmann na cerimônia de posse de Daniella Marques na Presidência da Caixa (Edu Andrade/ Ministério da Economia)
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Wealth management (gestão de patrimônio) é um serviço financeiro voltado para pessoas ou famílias com patrimônio elevado que precisam organizar, proteger e fazer crescer seu dinheiro de forma estratégica. Ou seja, Daniella atua junto aos clãs de endinheirados no Brasil, construindo “pontes para o middle market”, segundo o site.
O termo cunhado pelo mercado pode ser resumido como a ponte entre os grandes empresários que buscam comprar médias empresas por meio do mercado financeiro, aumentando a concentração de renda nas classes mais abastadas – e consequentemente aprofundando o fosso da desigualdade no país.
Em um pretenso governo Flávio Bolsonaro, a “Paulo Guedes de Saia”, como definem os banqueiros, retomaria as políticas neoliberais de seu eterno chefe e colocaria o Brasil de volta nos trilhos historicamente desejados pela Faria Lima, drenando recursos e empresas públicas para as mãos dos endinheirados que controlam o mercado, a mídia liberal, o Centrão e a ultradireita neofascista por meio dos cabrestos em suas apostas eleitorais