Nesta quarta-feira (3), durante uma reunião com seu ministério, o presidente Lula anunciou a intenção de enviar uma carta a Donald Trump, presidente dos EUA, em resposta ao não cumprimento do acordo firmado entre eles na Casa Branca. Lula criticou as novas sanções impostas pelos Estados Unidos e confirmou sua participação na cúpula do G7, marcada para os dias 15 a 17 de junho em Évian-les-Bains, França, onde pretende denunciar o “desmonte do multilateralismo e da democracia”.
Após expor a “traição à pátria” por parte de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que estariam conspirando contra o Brasil no contexto das sanções de 25% e 12,5% anunciadas pelos Estados Unidos, Lula reiterou a necessidade de que os membros do Conselho de Segurança da ONU se reúnam para discutir seus papéis, questionando se devem agir em prol da paz ou fomentar conflitos.
“Vou escrever outra carta ao presidente Trump. Farei quantos artigos forem necessários na imprensa americana e internacional para provar que eles estão errados e induzindo o mundo a uma violência desnecessária. Todos sabem que um conflito mais sério pode levar ao uso de armas nucleares, e isso não é apenas um confronto entre países, mas uma destruição do planeta”, declarou Lula.
O presidente também se comprometeu a apoiar empresários brasileiros na busca por novos mercados caso Trump mantenha sua postura tarifária. Ele orientou seus ministros a não se deixarem abater e reafirmou sua presença no G7.
“Não devemos temer nada. Não vamos baixar a cabeça. Continuaremos fazendo o que sabemos fazer e dialogando com todos. Inicialmente, não iria ao G7, mas agora irei. É necessário que alguém tente restaurar a ordem diante do desmonte do multilateralismo e da democracia. Se a ONU não está funcionando, não é destruindo-a que solucionaremos os problemas; precisamos fortalecê-la”, comentou o presidente.
Rubio como alvo
No encontro ministerial, Lula reafirmou a posição firme do Brasil frente à nova ofensiva comercial dos Estados Unidos, criticando veementemente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seus aliados por supostamente incitarem conflitos internacionais para fins eleitorais.
Lula mencionou que a proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) em 1º de junho, pegou o governo brasileiro de surpresa. O presidente classificou como “traição à pátria” o envolvimento de brasileiros na articulação dessa medida, referindo-se indiretamente a Flávio Bolsonaro como “imbecil”.
“É lamentável ver brasileiros fomentando essa disputa com a expectativa de prejudicar uma candidatura presidencial sem perceber que quem sofrerá as consequências será o povo brasileiro, não eu”, afirmou Lula.
“É crucial que neste momento decisivo as sociedades brasileiras e até mesmo uma parte da sociedade mundial reconheçam nosso esforço para fortalecer a democracia no país e promover o multilateralismo. Não podemos ser tratados como uma república insignificante”, acrescentou Lula, enfatizando a gravidade da situação atual.
Críticas a Marco Rubio e defesa da soberania
Lula dirigiu-se diretamente ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, um dos principais contatos do governo americano com os Bolsonaro. O presidente descreveu Rubio como um “latino-americano frustrado” e criticou suas declarações sobre o fortalecimento da influência dos EUA na América Latina, excetuando Brasil, Nicarágua, Cuba e Colômbia.
“Ele ignora que este país já foi vítima de um golpe em 1964 orquestrado por embaixadores americanos. É fundamental que eles entendam nossa história e nosso desejo de fortalecer as relações institucionais com os EUA”, declarou Lula.
O presidente ainda destacou que houve tentativas formais de diálogo com os EUA antes das sanções serem anunciadas: “Ninguém pode afirmar que o Brasil se negou à negociação. Desde o primeiro tweet do presidente Trump já estava claro que estávamos lidando com um comunicado contrário aos princípios democráticos. Tomei conhecimento das tarifas inicialmente via Twitter”, relatou.
Além disso, ele defendeu o multilateralismo e enfatizou a importância de construir uma narrativa própria: “Optamos por não adotar bravatas ou discursos vazios; decidimos criar uma narrativa para demonstrar aos Estados Unidos e aos outros países — incluindo artigos publicados no The Post e no New York Times — as incongruências das punições ao Brasil.”
Lula reafirmou que o país não cederá:
“Decidimos que este país não adotará mais uma postura subserviente diante das potências mundiais. Não devemos temer nada; somos democráticos e soberanos. Não iremos recuar.”
Ofensiva de Trump e articulação bolsonarista
A ofensiva comercial dos EUA está diretamente ligada à visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca em 26 de maio, onde ele se reuniu com Donald Trump, JD Vance (vice-presidente) e Marco Rubio. A série de encontros seguidos pela divulgação das tarifas geraram críticas do Planalto, acusando a família Bolsonaro de utilizar questões de política externa para interesses pessoais em detrimento da economia nacional.
Lula sublinhou que o Brasil manterá sua independência nas negociações comerciais: “Não ficaremos lamentando. Buscaremos novos parceiros comerciais. Se ele não quer comprar nossos produtos, nós venderemos para quem deseja.”
O presidente enfatizou ainda seu desejo por paz: “Estamos calmos nessa situação. Não quero conflitos com os EUA nem com nenhum outro país. O objetivo é mostrar que só conseguiremos viver em harmonia se apoiarmos a democracia e o multilateralismo.”
O governo Lula também ressaltou que o sistema Pix, símbolo da soberania digital brasileira, está resguardado contra negociações unilaterais. Ao mesmo tempo, Lula reiterou seu compromisso em diversificar parcerias comerciais enquanto mantém o multilateralismo como eixo central da política externa brasileira.
Com uma retórica firme voltada para transformar os desafios externos em capital político interno, Lula procura consolidar sua liderança regional enquanto defende os interesses nacionais contra interferências bolsonaristas e as políticas protecionistas provenientes de Washington.